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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Fé no absurdo



"Abraão creu na palavra divina de que todas as nações seriam abençoadas em sua posteridade, e continuou a crer nela ainda quando, após ser pai na velhice, lhe foi exigido o sacrifício de seu único filho, Isaac; ora, tal sacrifício, que tirava todo sentido racional à promessa, significou, para Abraão, a fé no absurdo, a certeza de que Deus o estava provando e a disposição de sacrificar, se necessário, Isaac (com a certeza de que este lhe seria restituído); realiza-se, assim, o movimento que parte da resignação infinita (pela qual renuncia a Isaac), em que se adquire a consciência do seu próprio valor eterno, e chega-se, pelo absurdo, à fé, em que se readquire o finito (a retomada de Isaac); tal movimento implica a angústia e o paradoxo pois, se é preciso coragem puramente humana para renunciar a toda a temporalidade a fim de obter a eternidade, é preciso a coragem da fé para, em razão do absurdo, encontrar a alegria na temporalidade finita e transformar, assim, um crime moral em algo santo e agradável. "

Kierkegaad em Temor e tremor.

sábado, 12 de setembro de 2009

Apenas um número


"A contemplar as multidões à sua volta, a encher-se com ocupações humanas, a tentar compreender os rumos do mundo, este desesperado esquece-se de si mesmo, esquece o seu nome divino, não ousa crer em si mesmo e acha demasiado ousado sê-lo e muito mais simples e seguro assemelhar-se aos outros, ser uma imitação servil, um número, confundido no rebanho."

Kierkegaard
em Desespero Humano, p.37.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Entre pedras e almofadas

Por Daniel Grubba

Jacó dormiu e fez da pedra travesseiro. Era um movimento de fuga existencial. Ele fugia do irmão, do passado, e principalmente de si mesmo. Era um movimento desesperado que sobrepujava a historicidade do acontecimento. É como disse Kierkegaard, o desespero de ser o que não gostaria de ser. Desespero de tentar ser como o célebre irmão Esaú, roubar-lhe a primogenitura, vestir-se com suas roupas, imitar sua pele cabeluda e no fim de tudo ser obrigado a confessar no tribunal divino em Peniel: Sou Yacob (em hb. enganador). É o desespero da culpa. Desespero da pergunta retórica de Jeremias 13.23 que ecoa no interior de todos nós: Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Como podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal? Reformulando a questão seria: Como nós sendo yacobinianos por natureza nos livraremos de tão grande tendência ao pecado e culpa? Ou como Paulo suspirou: Quem me livrará deste corpo de morte?

Jesus também dormiu e não fez da pedra travesseiro. Era o sono dos justos. Podia, sem dever nada a ninguém, reclinar sua cabeça sobre uma almofada confortável, dormir e sequer notar a tempestade que assombrava seus amigos. Jesus não tinha a síndrome de Adão e Eva, portanto não se escondia de Deus e nem de ninguém. Não tinha culpas, muito menos pecados. Ele apenas ouvia do alto a voz do Abba que dizia: Meu filho amado que me dá muita alegria.

Onde você reclina sua vida? Sua culpa interior lhe faz dormir na dureza de uma pedra ou você consegue descansar confiantemente no confortável colo do Pai, porque sabe que é alguém justificado pelo Filho?

Yacob, o Usurpador, se tornou Israel. Deus o mudou, e a partir de então recebeu sua uma nova identidade. Nunca mais precisou tentar ser o que não era. De semelhante modo, nós também recebemos uma nova identidade e uma nova disposição interior. Morremos com Cristo e com ele também ressuscitamos. Somos uma nova criação, as coisas velhas se passaram, tudo se fez novo. Somos aqueles que Jesus ama graciosamente, pois não temos a justiça própria que vêm da lei ou de nossos parcos esforços, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé.

Não há condenação, somos filhos reconciliados e não precisamos mais dormir em travesseiros de pedra como aqueles que fogem. Por isso podemos assumir com confiança inabalável a atitude de fé que sugeriu o monge trapista Thomas Merton:

“Abandone de vez suas pontuações e renda-se com toda sua pecaminosidade ao Deus que não leva em conta nem os pontos, nem aquele que os marca, mas vê em você somente um filho, remido por Cristo.”

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A relação entre Kierkegaard e apologética

Meus primeiros contatos com o pensamento de Kierkegaard (1813-1855) foram através de leituras apologéticas ortodoxas (Geisler, Turek, Craig, Schaeffer e outros). Via de regra, Kierkegaard é sempre rotulado como alguém que prestou um desserviço ao cristianismo. E em quase todos textos que li, salvo o livro de W.L. Craig, ele é acusado de ser fideísta e irracionalista.

No entanto, quando comecei a ler os textos de Kierkegaard em primeira mão, não segundo os pressupostos dos apologistas, minha visão sobre este apaixonado cristão mudou muito. Há de se entender o contexto de sua época, e suas angustiosas relações com a vida, com a igreja e consigo mesmo, para entender seu pensamento.

Sua repulsa contundente em relação a apologética estava intimamente associada ao seu conceito sobre a igreja luterana estatal dinamarquesa, onde quase se tornou pastor. De acordo com Kierkegaard, a igreja luterana de sua época, tinha transformado a fé cristã em uma religiosidade estática, burocratizada, fria e sem vida. Um de seus biógrafos nos revela que "toda sua vida constitui uma intensa experiência da contraposição entre aquilo que considerava ser o cristianismo em seu significado mais profundo e as roupagens exteriores com as quais se revestia a igreja luterana de seu tempo. Para Kierkegaard, a vivência mais profunda do cristianismo é a vivência e a certeza da fé" (CIVITA, Coleção Pensadores, 1974).

O que pensava Kierkegaard sobre a defesa da fé?

"Vê-se agora que extraordinária tolice se comete defendendo o cristianismo, como se trai assim o restrito conhecimento do homem, e como essa tática, ainda que inconsciente, tem, sub-repticiamente, partida ligada com o escândalo, fazendo do cristianismo uma coisa tão lamentável, que por fim é necessário advogar sua causa para o salvar [...] Advogar desacredita sempre [...] Declaro incrédulo aquele que o defenda. Se crê, o entusiasmo de sua fé, nunca é uma defesa, é sempre um ataque, uma vitoria: um crente é um vendedor [...] Como admirar-se que a nossa gente, depois disto - por não sentir defensável a própria atitude - sinta necessidade de defender o cristianismo [...] quase como o pastor quando prova em três pontos a eficácia das orações, tanto elas tem baixado o preço que tem necessidade de três pontos para recuperar um pouquinho de prestigio.

O que kierkegaard quer dizer?

Ele quer dizer que a maior evidência que se pode dar aos não cristãos, não são os argumentos (ainda que eles sejam importantes a posteriori), mas uma vida absolutamente apaixonada e mergulhada em amor. Kierkegaard ironicamente diz que jamais passará pela pela cabeça de um verdadeiro apaixonado provar ou defender seu amor em três pontos, visto que alguma coisa vale mais mais que todos os pontos juntos e que qualquer defesa: ele ama.

Não diga que amas, ame de verdade e todos saberão!

terça-feira, 26 de maio de 2009

A universalidade do desespero


"Assim como talvez não haja, dizem os médicos, ninguém completamente são, também se poderia dizer, conhecendo bem o homem, que nem um só existe que esteja isento de desespero, que não tenha lá no fundo uma inquietação, uma perturbação, uma desarmonia, um receio de não se sabe o quê de desconhecido ou que ele nem ousa conhecer, receio duma eventualidade exterior ou receio de si próprio; tal como os médicos dizem duma doença, o homem traz em estado latente uma enfermidade, da qual, num relâmpago, raramente um medo inexplicável lhe revela a presença interna. E de qualquer maneira jamais alguém viveu e vive, fora da cristandade, sem desespero, nem ninguém na cristandade se não for um verdadeiro cristão; pois que, a menos de o ser integralmente, nele subsiste sempre um grão de desespero".

Sorën Kierkegaard em O desespero humano, p. 345. (Série: Os pensadores - Abril Cultural)

segunda-feira, 2 de março de 2009

O que aprendi com Sören Kierkegaard



Meus primeiros contatos com o pensamento de Sören Kierkegaard se deram através da perspectiva do outro, isto é, tudo que sabia a seu respeito era baseado na leitura e interpretação de terceiros. Me foi dito que seu método de investigação cognitiva era guiado por um processo de suspensão racional. Que também era considerado "pai do existencialismo". E mais, responsável indireto pela escola fideísta (a fé é um salto no escuro). Tudo dito por alguém que o leu e o julgou, principalmente pelos "defensores da fé". Portanto, como um estudante de apologética, aprendi a vê-lo com toda sorte de preconceitos possíveis, olhando sempre pelo lado negativo, e tudo isto antes mesmo de conhecê-lo. O que é isto senão dogmatismo?

Resolvi ler e tirar minhas conclusões. Ainda sei muito pouco sobre sua obra, mas o que aprendi?



Que a atitude dogmática nos afasta da verdade, sufoca o livre diálogo e reduz o ser a um esteriótipo vazio de significado. Sim, estava sendo dogmático.


Que seu conceito de fé não invoca o irracional, mas coloca a fé acima da razão. Não suspende o raciocínio, mas não se prende absolutamente a ele. Para Sören, fé é crer no Absurdo.


Que a fé pertence ao mais alto grau de elevação existencial. A fé é superior a estética e a moral.


Saindo do campo filósofico das idéias, aprendi principalmente que não devo julgar quem quer que seja, a partir da análise de terceiros. Devo tirar minhas próprias conclusões a partir da minha própria reflexão. Se quero fazer uma crítica a um escritor, por exemplo, deve lê-lo em primeira mão.


Enfim, leia tudo e tire suas conclusões. Faça isto pelo bem da tua alma. E mais, leia não só os livros, mas os fatos, a vida, a história. Se você assim não fizer, alguém fará por você. Ai você perderá a capacidade de analisar, se tornará um fundamentalista, repetidor de discurso e a verdade estará longe do teu coração.