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terça-feira, 22 de setembro de 2009

O Evangelho da Verdadeira Liberdade

Por Daniel Grubba



Ora, o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade.
- Paulo em II Co 3.17 -



A interpretação mais corriqueira deste pequeno versículo parece sempre estar ligada a liberdade litúrgica. É muito comum ouvirmos, principalmente em comunidades mais carismáticas, algo assim: Irmãos, na presença do Senhor temos liberdade, podemos cantar em todos ritmos, dançar como Davi dançou, chorar copiosamente, cair na unção, orar em línguas o mais alto para que todos ouçam, ou se preferir, ficar em silêncio contemplativo. Então, no fim da breve ministração concluem citando o versículo supracitado. É muito bonito, mas este trecho de II Co 2 não tem absolutamente, nada haver com liberdade que se expressa no culto.



Liberdade de culto?


Levarei em conta apenas duas considerações. Em primeiro, a contrário dos mais tradicionais, penso que a flexibilidade litúrgica traz dinâmica e vida ao culto. Não creio que o culto cristão, para ser mais solene, deva assemelhar-se a um funeral, ou deva zelar a todo custo por uma estrutura tradicionalista, rígida e imutável. Desde que haja ordem e decência como nos orienta Paulo em I Co 14.40, podemos torná-lo mais feliz, por assim dizer. Não podemos nos esquecer que nosso povo é expansivo, passional, alegre. Há que se compreender os aspectos culturais. O culto no Norte do país em uma Assembleia Pentecostal, será muito diferente do culto celebrado no Sul em um igreja luterana. Por isto, sempre haverá perigo na vã tentativa da sacralização ou demonização de aspectos culturais "a-morais" e singulares de cada região.


Erro crasso de interpretação

A segunda consideração que gostaria de registrar é de natureza hermenêutica. Como já disse na introdução, a liberdade que o Espírito promove não tem nada a ver com a vida cúltica. Afirmar isto, além de reduzir ao máximo o profundo significado do texto, também é um erro crasso de interpretação. Apenas quem não conhece o contexto imediato do capítulo 3 do segundo livro aos Coríntios pode dizer que a frase - onde o Espírito do Senhor está, ai a liberdade - significa liberdade para "fazer o que der vontade de fazer" no culto.

A verdadeira Liberdade

Então, de que somos libertos afinal? Que espécie de liberdade o Espírito do Senhor promove? Simples, leia todo o capítulo II Co 3.1-18. Como alguém já disse: texto sem contexto, é pretexto.

A primeira coisa que deve ficar bem clara é que a liberdade do Espírito do Senhor, que Paulo discorre em toda perícope, não está de modo algum relacionada a expressões litúrgicas de culto. Pois a maravilhosa libertação ocorre em nós, no interior da gente, no modo como nos relacionamos com Deus em nossos corações, e não fora de nós. Pois é bem possível que haja pessoas que dançam, correm e pulam no culto, mas em seu interior são consumidas por um medo angustiante de serem riscadas do livro da vida, de serem consideradas indignas do Reino, de não serem amadas incondicionalmente por Deus. Sim, muitas vezes, estão pulando, dançando, gritando, pois querem convencer a Deus de que são dignas em si mesmas de obterem a salvação, de que são merecedoras de serem abençoadas. E neste caso, toda liberdade do culto, em todas suas expressões, deflagram apenas uma devoção patrocinada pela culpa.

Então, de acordo com Paulo, seguindo a sequência natural de texto, devemos afirmar que somos libertos da toda frustração e culpa que provém de nossas inúteis e arrogantes tentativas de afirmar nossa justiça diante de Deus mediante a obediência da Lei. Vejamos:

Vers. 3.3 - Somos libertos pelo Espírito do Deus vivo, de um relacionamento primitivo que se fundamenta em tábuas de pedra como na Antiga Aliança, para nos relacionarmos intimamente com Deus, nas tábuas de carne do coração. Paulo está dizendo, na verdade, que não tinha nenhum código de leis, regras legalistas, preceitos mosaicos - tábuas de pedra - para apresentar ao povo de Corinto, como meio de relacionar-se com Deus. Ao contrário, eles iriam discernir a vontade de Deus, lendo e observando as tábuas de carne. Ou seja, o modo de viver de um cristão que aprendeu amar (I Co 13).

Vers. 3.6 - Somos libertos para sermos ministros de uma Nova Aliança, não da letra do Antiga Aliança, mas do Espírito; porque a letra, os códigos, os preceitos, e as ordenanças da Lei, são as coisas que matam pela imposição da culpa, mas é o Espírito que vivifica. Posto que a Lei só serviu para mostrar o quanto somos pecadores e incapazes de cumpri-la. "Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus." (Rm 3.19).

Vers. 3.7-8 - Somos libertos do ministério da morte que foi gravado com letras em pedras. E que apesar de toda gloria, que estampava-se na face de Moisés, era transitória e temporal; Ficou velha e caduca, pois Hebreus 8.13 diz: Dizendo Nova aliança, envelheceu a primeira. Ora, o que foi tornado velho, e se envelhece, perto está de acabar. Fomos chamados a liberdade da glória do ministério do Espírito, que é infinitamente maior e eterna.

Vers. 3.9 - Fomos libertos do ministério da condenação, que foi glorioso, mas muito mais excederá em glória o ministério da justiça. Sim, a lei - letra que mata - nos encerrou debaixo do pecado destituindo-nos da gloria, mas a justiça de Cristo, nos declarou para sempre justos diante de Rei. Portanto, não há mais condenação (Rm 8.1).

Vers. 3.11 - Fomos libertos do que era transitório e temporal. E apesar de todo o esforço dos evangélicos legalistas de reavivar uma Lei para se ufanarem de seus gloriosos feitos [...] Nós, os que acreditamos na justificação pela fé, não nos apoiamos em nossa obediência a Lei, que não passam de trapos de imundícia, pois é por Cristo que temos tal confiança em Deus; Pois como disse Paulo em II Co 3.5: "Não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus".

Vers. 3.13 - Fomos libertos da tendência de reproduzir a espiritualidade de Moisés, que punha um véu sobre a sua face, para que os filhos de Israel não olhassem firmemente para o fim daquilo que era transitório. Pois fomos chamados à sermos a semelhança do Filho de Deus, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos (Rm 8.29).

Vers. 3.14 - Fomos libertos do endurecimento dos sentidos; libertos do véu que nos obrigava a guardar a Lei, a qual foi por Cristo abolida. Sim, não somos mais obrigados a obedecer a Lei como meio de justificação, pois ninguém nunca será justificado pelas obras da lei (Gl 2.16).

Vers. 3.18 - Fomos libertos e todos nós, com rosto descoberto, refletimos como um espelho a glória do Senhor; somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor. A transformação é obra de Deus, não é algo que possamos fazer por nós mesmos.

Posto isto, devemos afirmar, de acordo com a consciência do Evangelho, que toda e qualquer tentativa humana de guardar a Lei, produzirá frustração e culpa. Sim, ora ficaremos frustrados por descobrir que é impossível cumprir os preceitos, e automaticamente seremos condenados a estado crônico de culpa e ansiedade.

Viver segundo o Evangelho da Verdadeira Liberdade

Viver segundo o Evangelho da Verdadeira Liberdade é poder descansar no fato, de que tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo; Pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus.

Viver segundo o Evangelho da Verdadeira Liberdade é poder seguir rumo ao alvo, sem ter a necessidade de olhar para as coisas antigas, pois quem está em Cristo é uma nova criatura, tudo ficou para trás, e novas coisas se fizeram.

Viver segundo o Evangelho da Verdadeira Liberdade é não aniquilar a graça de Deus; porque, se a justiça provém da lei, segue-se que Cristo morreu em vão. É poder cantar, dançar, pular; ou se preferir ficar em silêncio em profunda reverência, desde que o coração esteja apaziguado na maravilhosa graça de Deus.

domingo, 13 de setembro de 2009

Estranhezas Bíblicas


Por Daniel Grubba

Alguns dias atrás estávamos conversando com nosso professor de grego enquanto desciámos a rua da faculdade rumo ao metro e ele comentou um pouco acerca de seu projeto de tradução bíblica. Foi quanto ele nos disse, com todo cuidado para não escandalizar, de sua dificuldade em traduzir alguns termos bíblicos ou expressões idiomáticas, principalmente no AT, que certamente não passarão pelo crivo da Editora que o contratou e muito menos pelo padrão moral-religioso dos leitores. Ele nos contou de algumas passagens que trazem a palavra "fezes" (para não falar outra coisa, pois no original em hebraico seria b...) e que certamente ofende nosso pudor.

Agora verdade seja dita: Há algumas passagens bíblicas bem embaraçosas, não é mesmo? É batata!!! Todo leitor atento das Escrituras, cedo ou tarde, se depara com algumas delas. Nas minhas leituras, tem uma passagem, que sempre deixa-me como os malucos da foto. Está em Ezequiel 23.19 : 20 e diz assim no versão do Almeida (Revista e Atualizada):

Todavia ela multiplicou as suas prostituições, lembrando-se dos dias da sua mocidade, em que se prostituira na terra do Egito, apaixonando-se dos seus amantes, cujas carnes eram como as de jumentos, e cujo fluxo era como o de cavalos.

A principio esta passagem não chama muita atenção. Acontece que nesta versão (RA) os tradutores tentaram deixar o texto menos chocante. A tradução mais próxima do original seria assim, na versão CNBB:

Apaixonou-se por esses degenerados, cujos membros são como os de jumentos, e o orgasmo, como o de garanhões no cio.

O que muitos leitores se perguntam ao ler, não somente este trecho mas todo o capítulo 23 do profeta Ezequiel, (que por sinal fala da prostituição espiritual do povo de Israel), é o seguinte: Por que este profeta usou uma linguagem tão repulsiva?

No decorrer da história, principalmente entre os teólogos liberais do século XIX, começou a circular a idéia de que o profeta Ezequiel provavelmente sofresse de algum distúrbio psíquico mais ou menos profundo, sintomas estes que iriam de traços patológicos ou até mesmo esquizofrenia*. E de fato há coisas bem estranhas no comportamento do profeta, dentre as quais destacamos: experiências de arrebatamentos extáticos, a sua mudez temporária(3.22ss), o gesto simbólico de permanecer deitado durante 430 dias (4.4-8), e cozimento de sua comida sobre o esterco de vaca (4.12-15).

Porém, esta suposta "loucura" do profeta é apenas uma teoria. O que podemos ver claramente é que seu pensamento não é diferente de uma pessoa sadia. Ele é apenas um ardente apaixonado pelo seu povo e usa de gesto simbólicos para chamar atenção de um povo adormecido. E analisando a estrutura da sua mensagem observamos que "suas idéias aparecem unidas logicamente entre si, delas resultando um contexto homogêneo e coerente"*

A razão, portanto, da linguagem figurada tão realista de Ezequiel, é sua compaixão pelo povo e seu desejo de vê-los livre da ira divina. Falar ao povo nestes termos tão repulsivos era uma medida extrema de desespero. Para Ezequiel, o povo de Deus estava em flagrante prostituição em relação a aliança mosaica. Assim, o Egito seria o amante, o macho lascivo com que a fêmea promíscua, Jerusalém, desejava relações sexuais gratuitas. Esta claro, pelo contexto histórico, que havia entre este povo de Israel a obsessão pela aliança política com o Egito, algo considerado indecente aos olhos de Javé.

Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade dos homens, mas os homens da parte de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo. (I Pe 1.20-21)

Ezequiel foi contato entre os profetas inspirados e canônicos. E o mais impressionante nisto tudo, é que a inspiração divina não suprimiu as particularidades individuais de Ezequiel, por mais esquizitas que fossem, apenas as aperfeiçou para o chamado de Deus, tornando-as mais potentes e dinâmicas. E que assim seja conosco, amém!

Soli Deo Gloria
_______________

*Mais informações em Introdução ao AT, p.584-585 (E. Sellin & G. Fohrer)
*Ibib, p.585.
Fonte: Bíblia de Estudo Vida

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Comidas sacrificadas


Posso ou não comer as comidas da festa junina?

*****

O cristão que tem a consciência madura em Cristo deve entender que as comidas não são imundas em si mesmas. De semelhante modo deve compreender que tudo que Deus criou é bom quando recebemos com ações de graça, e que também a "contaminação do ser" não se dá por ingestão alimentar, mas contamina-se pelo que sai dos lábios. "Porque a terra é do Senhor e toda a sua plenitude" (I Co 10.26).

Vejamos o que Paulo diz sobre comidas sacrificadas aos ídolos (I Co 8.4-6):

"Assim que, quanto ao comer das coisas sacrificadas aos ídolos, sabemos que o ídolo nada é no mundo, e que não há outro Deus, senão um só. Porque, ainda que haja também alguns que se chamem deuses, quer no céu quer na terra (como há muitos deuses e muitos senhores), Todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele".

Paulo diz que o ídolo não é nada neste mundo, e que há um só Deus. Portanto, não devemos nos preocupar com os ídolos de Corinto e também com os ídolos invocados nas festas juninas, eles nada são no mundo, senão para aqueles que prestam aos ídolos significados maiores em suas consciências adoecidas.

Ele também diz: Ora a comida não nos faz agradáveis a Deus, porque, se comemos, nada temos de mais e, se não comemos, nada nos falta. (I Co 8.8)

Então para Paulo a comida é neutra, não faz bem nem mal, espiritualmente falando. Ou seja, nada mudará se você deixar ou não de comer. Ele também diz em Romanos 14.17:

"Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo".

E também em I Timóteo 4.4-5:

"Porque toda a criatura de Deus é boa, e não há nada que rejeitar, sendo recebido com ações de graças. Porque pela palavra de Deus e pela oração é santificada".

Então veja, que para a mente de Paulo estas discussões sobre alimentos puros e impuros não deveriam preocupar os cristãos. São coisas sobremaneira periféricas, e não constituem nem de longe os fundamentos essenciais do Evangelho. Uma vez que tudo que Deus criou é bom.

No entanto há um porém...

Paulo diz que este entendimento não é comum a todos. Ele entendia que havia cristãos em Corinto que, por imaturidade, ainda acreditavam que os alimentos podiam contaminar o homem espiritual. Então ele diz: Mas nem em todos há conhecimento ...e a sua consciência, sendo fraca, fica contaminada (I Co 8.7).

****

Então eu responderia a pergunta inicial com uma outra pergunta:

De acordo com sua consciência, estas comidinhas deliciosas de festa junina, podem contaminar ou não? Eu acredito que não, mas você deve se responder a si mesmo.

Quanto ao escândalo, Paulo entendia que o cristão maduro, que acredita que pode comer de tudo, não deve escandalizar o irmão mais novo na fé de consciência fraca. E isto porque aquele irmãozinho ainda acredita que os ídolos são alguma coisa no mundo e tem algum poder sobre nós (via alimentos). É o mesmo que Paulo diz em I Co 10 - Tudo é lícito mas nem tudo edifica.

Então, se tua consciência não te condena, e não há irmãozinhos mais novos que ficarão escandalizados...bon apetit. Ore agradecendo a Deus pelo alimento, apenas tome cuidado com a gula...

Abraços,
Daniel

terça-feira, 7 de abril de 2009

Perigos da interpretação


Texto: Daniel Grubba

Não é verdade que todas as vezes que tentamos trazer à tona alguma ponderação sobre passagens bíblicas, somos logo tachados de teólogos frios, críticos, encaixotadores do Espírito Santo e dai para adjetivos piores?

Pois é, estas inflamadas acusações não deveriam causar espanto para os que tentam tratar a Bíblica (Palavra de Deus) com responsabilidade, uma vez que a boa intenção dos pseudo-interpretadores bíblicos foi posta de uma vez por todas no lugar da responsabilidade exegética-hermenêutica.

Isto é, não importa se o fulano(a) de tal está ensinando algo anti-bíblico, ou até mesmo herético, devemos apenas observar sua piedade e sinceridade em trazer um novo ensinamento. Vai que ele(a) teve uma visão ou Deus falou com ele(a). Quem sou eu para questionar? Nem a Bíblia tem este direito, não é mesmo? Pode-se também atentar ao título do(a) camarada, quanto mais perto de Jesus (medindo pela escala obreiro-apóstolo) mais chances da sua interpretação ser infalível-inquestionável. Ou por fim, basta observar os resultados positivos, isto é; igreja cheia, milagres, exorcismos - neste caso o veredito é certo. O que ele diz é lei!!!

Bom, quem defende o método intenção-titularidade-resultados como um novo padrão de interpretação bíblica, cedo ou tarde terá que engolir o que este pastorzinho anda fazendo com a Bíblia. Veja o vídeo e tire suas conclusões. Obs: Os ossos do profeta Oséias devem estar tremendo na tumba até agora

sexta-feira, 20 de março de 2009

O primeiro intérprete da Palavra



(Obra de Michelângelo retratando a tentação no Jardim do Éden)


Por um acaso, você sabe quem foi o primeiro intérprete da Palavra de Deus? Bem, para podermos responder a esta pergunta temos que nos dirigir até o livro de Gênesis 3.1-5. Esta passagem nos mostra pela primeira vez nos registros bíblicos alguém interpretar a Palavra de Deus. E você sabe quem foi seu primeiro intérprete? Foi o próprio Satanás!


Veja, abaixo, qual foi o "método hermenêutico" usado por Satanás para interpretar a Palavra de Deus:


Em primeiro lugar, Deus disse ao homem: "De toda a árvore do jardim comerás livremente; mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás" (Gn 2.16,17a). Porém, a serpente (a qual é chamada em Ap 12.9 de "a antiga serpente" e é identificada com o próprio Satanás) se aproxima de Eva e lhe diz: "É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?" (Gn 3.2). Vemos aqui que o primeiro "princípio hermenêutico" usado por Satanás para interpretar a Palavra de Deus foi o princípio da distorção da Palavra. Ele deliberadamente muda o sentido daquilo que Deus havia dito em Gn 2.16 a fim de que tal interpretação se encaixe adequadamente em seus malignos propósitos.


Em segundo lugar, além de distorcer o sentido da Palavra de Deus, Satanás também emprega o "princípio hermenêutico" da citação parcial. Na sua conversa com Eva, Satanás omite muito convenientemente o que Deus diz no verso 17a. Ele somente menciona (e de forma distorcida!) parcialmente o que Deus havia dito.


Em terceiro lugar, Deus diz: "(...) porque no dia em que dela comerdes, certamente morrerás" (Gn 2.17b). Satanás, ainda em seu diálogo com Eva, ao se referir a essas palavras, afirma: "Certamente não morrereis". O terceiro "princípio hermenêutico" que Satanás usa é o da alegorização. Para Satanás, aquilo que Deus disse - "certamente morrerás" - não deve ser entendido ao pé da letra, mas sim de forma figurada. O curioso é que ele mesmo se oferece para "desvendar" o sentido mais profundo e místico da Palavra de Deus: "Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal" (Gn 3.5).


Finalmente, e desta vez nas páginas do Novo Testamento, veremos novamente o intérprete Satanás em ação. Em Mt 4.5,6 e Lc 4.9-11, textos que tratam da tentação de Jesus no deserto, Satanás emprega o seu quarto "princípio hermenêutico": o uso de um texto bíblico fora de seu contexto. Nestas passagens dos sinóticos, a fim de tentar a Jesus, Satanás cita o Sl 91.11,12 de forma totalmente aleatória, arbitrária e descontextualizada. Ele instiga a Jesus para que salte do pináculo do templo sob a alegação de que os anjos o protegerão. Aqui, vale muito bem aquela máxima hermenêutica: "ele usou um texto fora de seu contexto para lhe servir de pretexto".


De tudo isso, a lição óbvia que fica é: "Não basta apenas interpretar a Bíblia, temos que buscar interpretá-la corretamente".


Autor: Carlos Augusto Vailatti - Fonte: http://blogdovailatti.blogspot.com/

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Genocídio cananeu (Js. 6.21) - Parte II

“E destruíram totalmente, ao fio da espada, tudo quanto havia na cidade, homem e mulher, menino e velho, bois, ovelhas e jumentos”. (Js. 6.21)

Acredito que a abordagem do genocídio cananeu e a conseqüente busca por uma interpretação fiel e imparcial deste registro em particular são extremamente relevantes por algumas razões. Em primeiro lugar, porque esta passagem é uma pedra de tropeço para muitos que vêem nestes registros um motivo para desacreditar na validade das palavras da Bíblia ou até mesmo na existência de Deus. Para o ateu George H. Smith, o Deus do AT reuniu uma respeitável lista de atrocidades. Thomas Jefferson acreditava que os relatos do AT revelam um Deus cruel, vingativo, caprichoso e injusto. A lista de acusações é bastante extensa, mas dá para perceber como alguns textos são particularmente odiosos para alguns grupos específicos de leitores, principalmente os que não vem na Bíblia uma fonte incomparável de autoridade divina. O caso mais recente de fúria contra a bíblia vem do "rotweiller de Darwin", o biólogo ateu Richard Dawkins, que baseado em trechos seletivos do AT, caracteriza Deus deste modo:

Controlador mesquinho, injusto e intransigente; genocida étnico e vingativo, sedento de sangue; perseguidor misógino, homofóbico, racista, infanticida, fifícida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista, malévolo.

Em segundo lugar, porque uma má compreensão destes registros veterotestamentários pode levar o intérprete a um caminho perigoso de liberalismo teológico. Muitos são os teólogos que vêem no genocídio cananeu e em outros textos violentos, um erro irreparável, distante de qualquer justificativa razoável. C.S. Cowles, professor na Point Loma Nazaré University é um deles. Ele confessa dizendo:

Se crermos que Jesus realmente é a “imagem de Deus” (Cl 1.15), então, temos de resistir a qualquer tentativa de defender as ordens genocidas do AT como expressão da vontade e do caráter de Deus. Uma vez que Jesus já veio, não temos obrigação de justificar o que não pode ser justificado e só pode ser descrito como anterior a Cristo, inferior a Cristo e contrário a Cristo.

Será que o genocídio cananeu é realmente injustificável? Esta “limpeza étnica” é um ato divino ou diabólico como C.S. Cowles parece dizer? Existe uma hermenêutica que nos ajude a dar uma resposta plausível para ateus, teólogos liberais e cristãos de um modo geral?

Em terceiro lugar, porque uma má interpretação destas passagens pode levar a uma contextualização perigosa e em alguns casos, pode gerar violência, contrariando completamente o espírito pacífico do cristianismo. As cruzadas, a santa inquisição e o julgamento das feiticeiras de Salem são apenas alguns exemplos de como a hermenêutica pode ser guiada por leis subjetivas e perniciosas.
Fontes:
Lee Strobel, Em defesa da fé .
Stanley Grundry, Deus mandou matar.
Alister Macgrath, O delírio de Dawkins.

domingo, 4 de janeiro de 2009

O Genocídio cananeu (Js. 6.21) - Parte I



“E destruíram totalmente, ao fio da espada, tudo quanto havia na cidade, homem e mulher, menino e velho, bois, ovelhas e jumentos”. (Js. 6.21)


Após o fatídico 11 de Setembro de 2001 o mundo se deparou com um termo árabe conhecido como Jihad, popularmente chamado no Ocidente de Guerra Santa. Dentre as muitas interpretações a doutrina islâmica da Jihad pode ser entendida como uma protecção do Islã contra aquilo que eles vêem como influências que "corrompem" a vida muçulmana[1]. Infelizmente, a influencia maligna para alguns militantes islâmicos radicais, é uma camada mundial inteira, chamada Ocidente.


A Jihad e a veloz propagação do fundamentalismo religioso islâmico são repugnantes e altamente conflitantes com os conceitos pós-modernos de nossos tempos, que carregam em si uma forte aceitação ao pluralismo e tolerância religiosa. Porém, o problema não esta confinado apenas ao âmbito teórico ético-filosófico. Oxalá o debate fosse apenas acadêmico. A verdade nua e crua é que idéias geram conseqüências, e más idéias geram más conseqüências, principalmente quando são ligadas a devoções sem limites.


E de fato, o senso comum de todos os seres morais é brutalmente atacado quando tentamos relacionar qualquer tipo de deus, que posso ser referido, com as cenas de terror insano que invadiram nossas telas após o covarde atentado contra os americanos e porque não dizer, contra a espécie humana. Sendo assim, algumas perguntas vêm à tona. Que tipo de divindade pode ordenar uma ação impiedosa como esta? Ou será que houve uma interpretação radicalizada do conceito islâmico da Jihad encontrado no Alcorão? Ambas as questões geram grande desconforto.


Como cristão é muito fácil repudiar estes atos como imorais e anticristãos, logo o próprio Jesus, segundo os relatos dos evangelhos, foi um grande incentivador da paz entre os homens. Basta apenas mostrar como as palavras e atos de Jesus demonstram amor, ternura, compaixão e misericórdia. Diferentemente do profeta Maomé, Jesus nunca desembainhou uma espada a fim de levar a cabo suas ambições, muito pelo contrário, repreendeu a Pedro quando este fez uso dela (João 18.10-11).


O problema, porém para os defensores do cristianismo é que a Jihad ou Guerra Santa não é uma invenção do islamismo. O Antigo Testamento registra o genocídio cananeu em nome Javé (ex. Js 6.21, I Sm 15.3), exatamente de onde Jesus, retirou toda sua ideologia pacificadora. E certamente, estes registros são extremamente embaraçosos para qualquer leitor bíblico. O teólogo Stanley Grundry questiona com sinceridade:


Como o Deus da bíblia foi capaz de ordenar a matança indiscriminada de todo um povo, sobretudo quando no Novo Testamento Jesus nos manda amar os inimigos e orar por eles? [2]



[1] Pode ser entendida como uma luta, mediante vontade pessoal, de se buscar e conquistar a fé perfeita. Ao contrário do que muitos pensam, jihad não significa "Guerra Santa", nome dado pelos Europeus às lutas religiosas na Idade Média.

[2] Stanley Gundry(editor), Deus mandou matar? p.7.



quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

O cristão e as festas


Fui questionado por uma pessoa se era correto um cristão ir na festa de fim de ano da empresa. Eis meu ponto de vista.


Quanto a sua pergunta "Será que eu como uma líder, agi certo?" a única maneira de responder a sua pergunta é fazendo referência ao modo operacional de Jesus. Ou seja, o que Jesus faria em teu lugar? Será que Jesus iria em uma festa da empresa? Poderemos descobrir estas respostas olhando para os evangelhos com imparcialidade e constatar a intensa vida social de Jesus. Vejamos apenas bem poucas referências:


-Jesus foi a uma festa de casamento em Caná (João 2).


-Jesus é descrito exaustivamente por todos os evangelistas como companheiro de pecadores e publicanos (considerados os traidores da pátrica e amigos de Roma).


E aconteceu que, estando ele em casa sentado à mesa, chegaram muitos publicanos e pecadores, e sentaram-se juntamente com Jesus e seus discípulos." (Mateus 9 : 10).


Devemos ter em mente que Jesus era completamente possuído pelo incomensurável amor de Deus. E tudo que fazia, somente fazia porque tinha a amor como fundamento de suas ações, até mesmo ir a cruz por nós. Tendo esta perspectiva, como o fruto do evangelho da graça de Deus (Atos 20.24), observo que até mesmo quando Jesus foi ao Templo e chicoteou a hipocrisa reinante, assim o fez por amor aos pecadores.


Mas onde estão os pecadores? Onde estão os justos? - Na ótica de Jesus, havia mais sinceridade entre os pecadores miseráveis, do que entre os religiosos de sua época. Religiosos eram aqueles que se auto-intitulavam "justos" e depreciavam aqueles que não faziam parte de seu grupinho, os excluídos do templo de Jerusalem, conhecidos pelos pretensos santos, de pecadores - (veja oração do publicano e do fariseus em Lucas 18.10 em diante). Sabe irmã, vejo que não mudou muita coisa. Os fariseus de hoje estão nos púlpitos, ministérios e nas bancos das igrejas, acreditam de todo coração que são justos por causa de seus atos piedosos e tem a presunçosa convicção de quem não precisam de cura;


Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento." (Mateus 9 : 13)


Neste caso, vejo que existe mais sinceridade nos bares, nas festas e nas esquinas da vida. São pessoas que precisam de ajuda, e sabem que são doentes. Querem encontrar sentido para suas misérias existências, mas não encontram nada a não ser omissão por parte daqueles que deveriam fazer o que Jesus fez: dar atenção a eles! Hoje, nos somos os levitas e sacerdotes que passam pelo caído e não o ajudam a levantar.


E, respondendo Jesus, disse: Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram, e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto. E, ocasionalmente descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo. E de igual modo também um levita, chegando àquele lugar, e, vendo-o, passou de largo. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão; E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele.


Por estas razões descritas acima, Jesus era uma aberração social e um verdadeiro escândalo para a casta farisaica. Isto porque, eles nunca entrariam na casa de um publicano, nunca se sentariam a mesa com um pecador, nunca comprimentariam uma mulher e muito menos ser companheiros delas como Jesus era de fato. Resumindo, eles nunca se assentariam com alguem desta classe. Todavia, Jesus não era legalista, era livre para amar incondicionalmente, não tinha sua vida pautada pela instituição religiosa da época e pelos padrões culturais vigentes, mas somente fazia o que o Pai mandava. Ele era apaixonado pelas vidas. E o fato dele não se preocupar com a opinião dos religiosos, os irritava demais ao ponto de pedirem sua morte na cruz. Isto sem falar dos leprosos, das mulheres menstruadas, considerados como seres mais indignos que os cachorros abandonados, pessoas que Jesus amou até o fim.


"E os escribas e fariseus, vendo-o comer com os publicanos e pecadores, disseram aos seus discípulos: Por que come e bebe ele com os publicanos e pecadores?" (Marcos 2 : 16).


Portanto, sem fazer nenhuma crítica a sua decisão de não ir, acredito que Jesus não teria nenhum problema em ir na festa da empresa.




  • Voce escreveu: Na minha opinião o Espírito Santo não entra com essa pessoa nessa festa! Ou será que entra? Que comunhão tem a luz com as trevas??????!!!!!! Não é isso o que diz a palavra?

Eu responderia em Sl. 139.8-11 - Para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face? Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também. Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá.Se disser: Decerto que as trevas me encobrirão; então a noite será luz à roda de mim.


Salmo 23.4 - Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo.


O Espírito Santo é nosso selo e a luz prevalece sobre as trevas. A encarnação de Jesus é a maior exemplo. Jesus entrou neste mundo caído, se revestiu de humanidade, sofreu tentações e todas intempéries da vida humana. Além do que, o texto de Paulo que você citou se refere a cristãos que iam as casas dos deuses pagãos para se prostituirem. Acredito que estes líderes que você mencionou não foram a esta festa para praticar tais coisas. E se o Espírito Santo sair de nós todas vezes que entrarmos em algum ambiente pagão, o único local seguro para ficar seria a igreja. Esta visão é bem limitada e não é de modo algum pertinente ao evangelho. Como já disse, Jesus rompeu com esta estrutura de pensamento. Ex: Jesus foi para Galiléia, em Gadara, entrou em um cemitério e expulsou a legião para os porcos (na cultura judaica isto seria o cúmulo da impureza: cemitério, porcos, demônios, etc).




  • Voce também escreveu: Adultério, concupiscência da carne, lascívia, palavrão, bebida, briga, bebida, droga, jezabel, enfim, nada de bom.

Não precisa ir a a festa da empresa. Infelizmente estas coisas, por mais constrangedor que seja, acontece nas igrejas. Por isso a referência de Paulo é que nós não podemos simplesmente não ter contato com estas coisas, a não ser se sairmos deste mundo.


Já por carta vos tenho escrito, que não vos associeis com os que se prostituem; Isto não quer dizer absolutamente com os devassos deste mundo, ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos seria necessário sair do mundo. I Corintios 5.9-10.


Paulo explica quem são estes que se prostituem na continuação do texto:


Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais. Porque, que tenho eu em julgar também os que estão de fora? Não julgais vós os que estão dentro?


Pasme! São os que estão dentro da igreja! Agora, existe duas situações. Tem gente que por motivo de consciência pode ir, outras não. Por exemplo, nao é bom que a Fulana vá, devido ao passado com drogas, ou talvez por prudência um novo convertido não deva ir também. Em Cristo, vôce tem a liberdade de não ir, e outros tem a liberdade de ir, outras não devem ir por motivos de fraqueza espiritual. Nós somos livres em Cristo, a Lei ficou no passado.


No seu caso, pode ser que não ir, seja um péssimo testemunho para aqueles que você deseja conquistar para Cristo. Até porque, a verdadeira transgressao não está no ambiente das festas, mas estão alojadas no coração, e podem estar no coração daqueles que frequentam igrejas de domingo a domingo, não é verdade? Por isso acredito que aquele que vai a festa não deve julguar aquele que não vai, e o que não vai não julgue o que vai. Pois quem não vai, deve não ir para o Senhor e quem vai deve ir para o Senhor, uma vez que tudo que fazemos deve ser feito para gloria de Deus.


E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens Col.3.17


Um faz diferença entre dia e dia, mas outro julga iguais todos os dias. Cada um esteja inteiramente seguro em sua própria mente. Aquele que faz caso do dia, para o Senhor o faz e o que não faz caso do dia para o Senhor o não faz. Romanos 14.5-6


Não se sinta culpada de não ter ido. Porque sei que você fez com intenção de agradar a Deus. Portanto, o mais correto é você não declarar que os que foram não estão agradando-O, pois como podemos saber se eles foram com um propósito divino? Eu mesmo irei em uma confraternização, e me assentarei na mesa com os pecadores como Jesus fazia. Claro, mantendo minhas convicções firmes, e orando para que Deus dê a oportunidade de pregar, seja com atitudes ou palavras. E tenho a convicção de que o Espírito Santo estará comigo.


Sei que fui bastante explícito, mas espero ter ajudado. Minha sincera oração é que você compreenda a profundidade do evangelho da graça de Deus e seja um verdadeiro instrumento na mão de Deus, como já tem sido.


Em Cristo, nAquele que se sentou na mesa da minha vida,


Daniel


Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. - Jesus de Nazaré.

domingo, 2 de novembro de 2008

Jesus realmente desceu ao inferno? Daniel Grubba


Jesus realmente desceu ao inferno?

Colocamos em pauta as três principais soluções apresentadas pelos estudiosos para o problemático texto de I Pe 3.19. São propostas diferentes, porem ambas as argumentações concordam que Jesus desceu ao inferno depois de morrer. Abordamos cada uma delas e verificamos as incoerências. Mas há um problema que todas têm que enfrentar. É que a origem da frase “desceu ao inferno” não aparece em nenhum lugar da Bíblia. Mas de onde exatamente surgiu esta idéia?

O Credo Apostólico

A primeira ocorrência da expressão “desceu ao inferno” está no Credo Apostólico, que tem a expressão latina “descendit ad inferna” (desceu aos infernos/hades) e a outra se encontra no Credo de Atanásio, com a expressão latina “descendit ad inferos” (desceu às regiões inferiores). O texto final do Credo Apostólico faz uma bela declaração de fé:

Creio em Deus, o Pai onipotente, Criador do Céu e da Terra. E em Jesus Cristo, seu único filho, nosso Senhor, o qual foi concebido do Espírito Santo, nascei da Virgem Maria, padeceu sob Poncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu aos infernos, no terceiro dia ressussitou dos mortos, subiu aos céus, este sentado a destra de Deus, o Pai onipotente, donde há de vir para julgar os vivos e os mortos. Creio no Espírito Santo, na santa igreja católica, na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna. Amém.

Sobre o desenvolvimento histórico do Credo Apostólico, Wayne Grudem diz que “foi surpreendente descobrir que a frase desceu ao inferno não se encontrava em nenhuma das versões primitivas do credo até que ela apareceu um uma versão de Rufino em 390 d.C., o único a incluí-la antes de 650 d.C”. Já que não é uma doutrina bíblica, Heber Campos afirma que devemos rejeitar as várias idéias relacionadas como a “decida literal de Jesus ao hades”.

Interpretação mais equilibrada

Ao rejeitarmos as idéias apresentadas anteriormente, somos forçados automaticamente a sugerir alguma outra interpretação mais coerente, porém com os mesmos critérios de avaliação. Vamos propor, na verdade, duas interpretações diferentes, mas que não são contraditórias entre si, pois entendemos que ambas podem ser usadas como propostas válidas e mais confiáveis biblicamente falando.

Interpretação reformada

O entendimento dos teólogos reformados com respeito a eventual descida de Jesus ao hades é bem diferente da de muitos cristãos, principalmente dos estudiosos citados neste trabalho. Esta interpretação está na verdade baseada na proposta do reformador de Genebra, João Calvino (1509-1564). Ele sustentou que “a descida ao hades foi a experiência das dores do inferno na alma de Jesus, enquanto seu corpo estava ainda pendurado na cruz, especialmente a experiência da ira divina contra o pecado, que ele suportou no lugar dos seres humanos”. Para Calvino, a alma de Cristo tinha de sentir todos os efeitos do juízo pois se alma dele não tivesse sido afetada pelo castigo, seria somente salvação de corpos. Erwin Lutzer corrobora com esta idéia, principalmente quando se analisa com profundidade o significado do brado de Cristo, enquanto pendurado na cruz em meio às trevas (Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste? (Mt 27.46). Ele diz:

Jesus certamente suportou o sofrimento do inferno, pois o inferno é escuridão, é desamparo, é ser abandonado por Deus, e se foi assim, o horror do que ele experimentou está além de nossa compreensão.

Heber Carlos de Campos, escritor reformado, conclui dizendo que “Jesus nunca desceu ao hades de literal e espacialmente, mas experimentou intensivamente todas as coisas que o hades representa”.

Interpretação analógica

A explicação da interpretação tipológica não chega a contradizer a interpretação reformada, mas dá ao texto I Pe 3.19-20 um enfoque diferente, todavia ambos concordam que Cristo não desceu ao inferno literalmente. Segundo Wayne Grudem, esta explicação é a mais satisfatória de I Pe 3.19-20 e remonta Agostinho que já dizia: a passagem não se refere a algo que Cristo fez entre sua morte e ressurreição, mas ao que “fez no âmbito espiritual da existência” (ou pelo Espírito) nos dias de Noé. Isto quer dizer que quando Noé estava construindo a arca, Cristo, “em espírito” estava pregando por meio de Noé aos incrédulos hostis em torno dele.


Esta concepção, não é tão popular, mas é digna de alta consideração. Não é tão mitologia quanto as anteriores (exceto a interpretação reformada), não se baseia em doutrinas humanas (Credo Apostólico) e tem apoio bíblico considerável. Por exemplo, em I Pe 1.11, ele diz que o “Espírito de Cristo” falava por intermédio dos profetas do Antigo Testamento. Em 2 Pe 2.5, ele chama Noé de “pregador da justiça”, empregando o substantivo keryx que vem da mesma raiz do verbo pregar de I Pe 3.19. Tudo isso nos leva a concluir que Cristo “pregou aos espíritos em prisão” por intermédio de Noé nos dias anteriores ao dilúvio. Esta idéia levanta um problema, pois eruditos em grego, afirmam que a Bíblia nunca usa “espírito” em referencia aos humanos. Como responder a isto?

As pessoas a quem Cristo pregou por meio de Noé eram incrédulos sobre a terra na época de Noé, mas Pedro os chama “espírito em prisão” porque estão agora na prisão no inferno (A NASB diz que Cristo pregou “aos espíritos agora em prisão) [...] Assim, Cristo pregou aos espíritos em prisão significa: cristo pregou as pessoas que são agora espírito em prisão, quando ainda eram pessoas sobre a terra.

Um outro conjunto de versículos em Pedro apóia está interpretação, de acordo com o contexto maior de I Pe 1.13-22. Neste contexto geral, Pedro parece fazer uma analogia interessante entre a situação de Noé e a situação de seus leitores. O confronto entre estas épocas distintas revela que ambos faziam parte de minoria justa, rodeados por incrédulos hostis, aguardavam o iminente juízo de Deus (I Pe 4.5-7; II Pe 3.10), deviam pregar com ousadia (I Pe 3.14, 16-17; 3.15; 4.11) e eram salvos ou seriam salvos (I Pe 3.13-14; 4.13; 5.10).

Conclusão

A pergunta que não quer calar agora pode ser respondida. Jesus desceu ao inferno? A resposta é não. Verificamos que há muitos problemas em adotar esta concepção e o testemunho do restante da bíblia não o apóia definitivamente. Como afirma Wayne Grudem, é no mínimo confusa e, na maior parte dos casos, enganosa para os cristãos de hoje.


Post dos artigos anteriores. Jesus desceu ao inferno? parte 1,2 e 3.

Soli Deo Gloria
Daniel Grubba

sábado, 4 de outubro de 2008

I Pe 3.19 - Jesus desceu ao inferno? (Parte 3) / Daniel Grubba

Terceira teoria: Proclamar vitória aos poderes das trevas

Uma terceira posição, é a de que Jesus, entre sua morte e ressurreição foi a inferno. Porém, a diferença é que esta suposta viagem metafísica não foi planejada com a intenção de oferecer segunda chance aos penitentes, tampouco libertar santos do AT, mas apenas para proclamar uma mensagem de vitória aos poderes do maligno. Esta teoria é tão popular quanto a anterior (libertar santos do AT).
Para Norman Geisler e Ron Rhodes, os espíritos em prisão “eram seres não salvos, devem ter sido anjos ao invés de seres humanos[1]”. Robert H. Gundry (Ph.D. em Estudos do Novo Testamento pela Manchester University) diz que “a pregação de Cristo aos espíritos em prisão mui provavelmente significa que Cristo desceu seu espírito ao hades, a fim de proclamar Seu triunfo sobre os espíritos demoníacos que ali haviam sido acorrentados por Deus[2]”. Roger Stronstad, editor do Comentário Bíblico Pentecostal, afirma que Jesus em virtude de sua morte, foi até os anjos aprisionados e anunciou sua vitória sobre a morte e as conseqüências de seu triunfo, isto é de que julgamento já estava selado[3].
Esta posição está fundamentalmente baseada em uma análise léxico-sintática de I Pe 3.19. Como já vimos este versículo diz que Cristo “foi e pregou aos espíritos em prisão” (NVI). E o que chama a atenção dos estudiosos desta sentença é o verbo pregar. A análise revela que Pedro usa propositalmente a expressão original grega kerussõ (khru,sow) que significa: “ser arauto”, ou em geral, “proclamar”[4]. Este termo é diferente de outra expressão grega euangelizõ (euvaggeli,zw), que significa pregar ou evangelizar (no sentido de dar oportunidade de escolha), que quase sempre é usado acerca das “boas novas” relativas ao Filho de Deus, conforme são proclamadas no Evangelho[5]. Neste contexto a melhor tradução bíblica em português de I Pe 3.19 é a KJA[6] que diz: “no qual igualmente foi e proclamou aos espíritos em prisão”.

Tomar as chaves da morte, inferno e Satanás.

É muito comum ouvirmos em pregações, principalmente quando o tema é batalha espiritual, uma expressão que diz: “Satanás é tão pobre que nem a chave de sua casa (inferno) ele tem mais”. Esta expressão popular[7] está intimamente associada com a idéia da ida de Cristo ao inferno. Muitos entendem que Jesus em sua rápida passagem pelo inferno proclamou a vitória da redenção, e de quebra tomou das mãos de Satanás as chaves do inferno e da morte.
Devemos mais uma vez rejeitar esta posição alegórica, pois o texto de I Pe 3.19 não diz isto claramente. E os versículos que tratam das chaves da morte e do inferno, nenhum, absolutamente, associa estas chaves como pertencentes a Satanás. “Somente o Senhor possui as chaves da morte e do inferno. Ninguém mais!” [8] Esta soberania está explicita em textos como Mt. 16.19, que diz que a chaves do reino dos céus foi entregue por Jesus aos apóstolos. E também em Ap. 1.18, texto em que o próprio Jesus declara que as chaves da morte e do hades (NVI) pertencem a ele. Em nenhum momento Jesus diz foi ao inferno (ou até mesmo a bíblia), e precisou roubar as chaves das mãos de Satanás, uma vez que este ser angelical nunca as teve em suas mãos[9].

Proclamar vitória aos anjos caídos

Segundo os expoentes desta teoria, a pregação aos espíritos, não é às “boas novas” propriamente dita, mas o ato de Jesus proclamar Sua vitória aos espíritos dos anjos caídos[10]. Com isso, eles querem dizer, que os “espíritos em prisão que há muito desobedeceram [...] enquanto a arca era construída” (NVI) são os filhos de Deus de Gn.6.2. Declara-se que os “filhos de Deus” eram anjos caídos, assim como em Jó 1.6 e 2.1 que (segundo se declara) abandonaram seu estado propriamente dito (espiritual) e se casaram com mulheres nos tempos de Noé[11] (Gn 6.1-4). Portanto, sugerem que Cristo foi proclamar vitória a estes anjos caídos da época de Noé[12].
Sobre isto devemos dizer esta idéia está mais baseada em mitos da literatura apócrifa apocalíptica judaica[13] do que na Bíblia, pois em Mt 22.30, Jesus diz que anjos não se casam. Um outro ponto fraco desta interpretação é que o contexto maior de I Pe 3 destaca pessoas hostis (I Pe 3.14,16) e não demônios, ou anjos caídos. E mesmo que o texto indicasse que eram demônios, exatamente de onde os leitores de Pedro encontrariam a idéia de que os anjos pecaram “enquanto se preparava a arca (I Pe 3.20)? Não há nada disso na história a respeito da construção da arca em Genesis[14].
De fato, como acabamos de ver, estas interpretações propostas são bem interessantes, mas algumas contradições irreparáveis as prejudicam. Wayne Grudem após analisar esta tese (proclamar vitória aos poderes das trevas) conclui:
Os leitores de Pedro teriam de se submeter a um processo de raciocínio incrivelmente complicado para chegar a essa conclusão, já que Pedro não ensina isso de modo explicito. [15]

[1] Norman Geisler e Ron Rhodes, Resposta às seitas, p. 411.
[2] Robert H. Gundry, Panorama do Novo Testamento, p. 394.
[3] Roger Stronstad comentando I Pe 3.19 no Comentário Bíblico Pentecostal, p. 1718.
[4] De acordo com o Dicionário VINE, p. 891. Ele diz que o verbo ekeryxen significa; proclamar uma mensagem, da parte de um rei ou potentado. (Ver também; Gleason Archer, em Enciclopédia de temas bíblicos, p. 356).
[5] Dicionário VINE, p.891.
[6] A nota textual de rodapé da KJA (King James Atualizada) explica que este tipo de pregação foi uma proclamação vitoriosa realizada por Jesus sobre o inimigo e toda a malignidade do universo (2 Pe 2.4-5; Cl 2.15).
[7] O grupo musical de louvor, Diante do trono ajudou a popularizar esta posição através da música “A vitória da Cruz”, composta por Ana Paula Valadão Bessa e gravada ao vivo no Parque da Gameleira (BH) em Jul/2000. A estrofe mais significativa para nosso trabalho diz: “O Leão de Judá pisou bem forte e os esmagou, Tomou as chaves das mãos do diabo, Abriu minas cadeias e me resgatou”. De fato é uma linda poesia inspirada, resta-nos saber se é biblicamente correta.
[8] Franklin Ferreira & Alan Myatt, Teologia Sistemática, uma analise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual, p. 620. Citação tirada pelos autores do livro de Heber Carlos de Campos, “Descenti ad Inferna”, p.126-127.
[9] É importante observar que o conceito de chaves em Ap. 1.18 está associado ao controle absoluto de Deus sobre a vida e sobre a morte. Outros textos corroboram com intensidade este conceito (Dt. 32.39; I Sm 2.6; Jo 5.21).
[10] Dicionário VINE, p. 892.
[11] Outras explicações menos lendárias devem ser analisadas e preferidas. Em outros contextos “filhos de Deus” muitas vezes se referem a seres humanos, embora em contextos diferentes (Dt. 14.1; 32.5; Sl 73.15; Is 43.6; Lc 3.38; IJo 3.1). Uma possibilidade válida é que “filhos de Deus” se refere a homens piedosos, descendentes de Sete e “filhas dos homens” se refere a mulheres pecaminosas da linhagem ímpia de Caim. Mais detalhes em Nota Textual de Gn 6.2, da Bíblia de Estudo NVI, p. 15.
[12] É assim que interpreta o texto David H. Stern. Ele diz: Os espíritos aprisionados são os anjos que pecaram (2 ped 2:4) e não mantiveram sua autoridade originaria (judas 6). Isto é, eles são “filhos de Deus ou filhos dos anjos), também chamados nefilim (caídos), que caíram de sua própria esfera, o céu para a terra, e “vendo (...) que as filhas dos homens eram formosas, tomaram para si mulheres” nos dias de Noach (Gênesis 6:2-4). Mais detalhes em Comentário Judaico do Novo Testamento, p. 820-821.
[13] O livro apócrifo de I Enoque ( datado de 165 a.C. a 90 d.C.) defende a idéia mostra como os anos caídos coabitaram com as filhas dos homens que geraram uma raça monstruosa de gigantes (I Enoque 7.1;15.1;86.1). Segundos o relato (15.1), esses gigantes forma destruídos pelo Dilúvio, mas seus epíritos foram deixados soltos como demônios para corromper todo gênero humano. (David, S. Russel, Entre o AT e o NT, p.103.)
[14] Wayne Grudem, Teologia Sistemática, p. 493.
[15] Idem, p. 493.

sábado, 27 de setembro de 2008

I Pe 3.19 - Jesus desceu ao inferno? (Parte 2) / Daniel Grubba

Segunda teoria: Libertar os santos piedosos do AT

Para o teólogo escocês e judeu, Myer Pearlman, a passagem de I Pe 3.19 testifica que Jesus desceu ao inferno em algum momento entre sua morte e ressurreição. Mas Jesus desceu ao inferno para fazer o que exatamente?

Em primeiro lugar, Pearlman credita esta passagem como um cumprimento de profecias, ou seja, Jesus estava apenas cumprindo profecias do AT (Salmo 16.10 e 49.15). Em segundo, Pearlman, afirma que Jesus após sua morte, desceu ao coração da terra (Mt 12.40; Lc 23.42,43) para libertar os santos do Antigo Testamento, levando-os consigo para o paraíso celestial. Ele mesmo explica dizendo que “essa descrição parece indicar que houve uma mudança nesse mundo dos espíritos e que o lugar ocupado pelos justos que aguardam a ressurreição foi traslado para as regiões celestiais[1] ”.

A implicação obvia de acordo com esta proposta de Pearlman é que “desde este acontecimento os espíritos dos justos sobem para o céu [2]”. Bom, se os espíritos dos santos do AT subiram para o céu a partir deste momento especial, a conclusão lógica, é que antes de Cristo, os fieis iam para o inferno e que estavam presos por lá até Cristo chegar. Mas onde exatamente, encontramos na bíblia idéia de que os santos do AT foram para o inferno após a morte [3]? Vejamos algumas considerações:

Em primeiro lugar, devemos lembrar que o contexto maior de Pedro, não especifica crentes no Antigo Testamento em geral, mas só os que foram desobedientes “nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca (I Pe 3.20). Em segundo lugar, o texto não diz que Cristo pregou aos que eram crentes ou fieis a Deus, mas os que “noutro tempo foram desobedientes” – a ênfase está na desobediência deles[4] . Em terceiro, o “seio de Abraão” (Lc. 16.23), provavelmente não é uma descrição do inferno e sim do céu, uma vez que o lugar para onde Abraão foi é chamado por Jesus de reino dos céus (Mt. 8.11). Em quarto, a Bíblia registra em muitas passagens que a alma dos santos do AT após morrerem vão diretamente para o céu[5] , porque seus pecados foram perdoados pela confiança no Messias que viria (Gn 5.24; 2Sm 12.23; Sl 16.11; 17.15; 23.6; Ec. 12.7; Mt 22.32-32; Lc 16.22; Rm 4.1-8; Hb 11.5).

Ainda que esta posição seja melhor que a primeira (segunda chance para os penitentes), e a também a mais popular[6] , estas considerações enumeradas acima, mostram muitos pontos fracos, o que nos leva desconsiderá-la como uma interpretação válida.


1- Myer Pearlman, Conhecendo as doutrina da Bíblia, p. 375.
2- Idem, p. 375.
3- De acordo com os partidários desta posição havia dois compartimentos no inferno, uma para os salvos e outro para os perdidos. Esta proposta esta baseada principalmente em Lc. 16.19-31 que fala sobre o local dos mortos (em hb. Sheol e gg. Hades, ambos vocábulos significam sepultura). A parábola do Rico e Lazaro fala que os dois morreram. O primeiro foi para o Inferno e o segundo para o Seio de Abraão. Myer Pearlman conclui a partir daí que havia duas divisões no Sheol, um lugar de sofrimento e outro lugar de descanso. Até mesmo a morada dos santos mortos, não era o céu propriamente dito, mas estava situado nas regiões inferiores.
4- Wayne Grudem, Teologia Sistemática, p. 493.
5- De uma maneira curiosa Myer Pearlman confirma esta idéia, o que obviamente contradiz o que ele quer comprovar. Myer afirma que “havia pessoas verdadeiramente justificadas antes da obra expiatória de Cristo” - (Abraão – Rm.4.23; Moises – Lc.9.30-31; Enoque e Elias ambos arrebatados para o céu). – Myer Pearlman, Conhecendo as doutrinas da Bíblia, p. 197.
6- O pastor e apologista da doutrina pentecostal, Marco Feliciano, considerado como “o pregador do povo”, popularizou esta posição em sua pregação intitulada “A agonia da cruz”, pregado na Igreja Assembléia de Deus (dez/2004). De uma maneira bastante eloqüente e poética, o pregador leva o público a meditar no momento em que Cristo desceu ao inferno e quebrou as cadeias dos santos do AT que estavam aprisionados.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

I Pe 3.19 - Jesus desceu ao inferno? (Parte 1) / Daniel Grubba

A Bíblia, como qualquer outro livro da antiguidade, contem algumas passagens que são de difícil interpretação. E mesmo com tanto progresso exegético e hermenêutico, ainda assim, em alguns casos específicos, a busca pelo real significado do texto é uma tarefa árdua. Todavia, a complexidade da tarefa não nos impede de tentarmos transpor estes abismos, seja ele cultural, histórico, religioso, teológico, filosófico ou lingüístico, uma vez que a teologia exegética tem desenvolvido, em contato com outros ramos do saber, algumas ferramentas fundamentais, que certamente nos ajudará a transpor os abismos.

Dos muitos textos bíblicos que tiram o sono dos teólogos, existe um que simboliza toda esta questão. O texto é I Pedro. 3.17-20. Assim está registrado:

Porque melhor é sofrerdes fazendo o bem, se a vontade de Deus assim o quer, do que fazendo o mal. Porque também Cristo morreu uma só vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; sendo, na verdade, morto na carne, mas vivificado no espírito; no qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão; os quais noutro tempo foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava, nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca; na qual poucas, isto é, oito almas se salvaram através da água.

Destes três versículos, há um que chama atenção de qualquer leitor atencioso. No verso 19, o autor, está afirmando categoricamente que Jesus pregou aos espíritos em prisão. Mas que raio de espíritos são esses? Quando e onde exatamente Jesus pregou a estes espíritos? Porventura, são estes espíritos, espíritos dos mortos santos? Ou pecadores? Ou são espíritos malignos? Como vemos, muitas questões vem à tona, porque o texto não é claro em respondê-las. Mas este texto suscita uma outra outra pergunta, que pode ser considerada como a “pergunta que não quer calar”. Jesus desceu ao inferno para pregar aos espíritos? Obviamente, esta pergunta ainda tem destroncamentos. Existem outros textos bíblicos que apóiam esta interpretação? Qual a razão de Jesus ter ido pregar aos espíritos no inferno?

Este é o tipo de texto em que devemos tomar muito cuidado, justamente por causa da sua falta de clareza. Uma das regras da hermenêutica bíblica, desenvolvida por Agostinho (354-430 d.C.), serve muito bem de alerta contra a tentação de apoiar uma doutrina em um versículo enigmático. A nona regra de Agostinho, conforme resumo de Ramm, preza que “se um significado de um texto é obscuro, nada na passagem pode constituir-se matéria de fé ortodoxa” [1]. Esta regra é tão bem fundamentada que nunca foi descartada e ainda esta em voga. Norman Geisler, renomado teólogo da atualidade, afirma que é um grande erro “basear um ensino numa passagem obscura”[2].

A primeira proposta que deve ser descarta como herética, é a idéia equivocada de que Jesus foi ao inferno para dar uma segunda oportunidade aos incrédulos que morreram em iniqüidade. Mas alguém crê nisso realmente? Sim. Este é o caso dos universalistas[3], mas principalmente dos mórmons, que acreditam baseado neste versículo que as pessoas têm uma segunda chance de serem salvas após a morte, afinal, um Deus realmente amoroso deve ser capaz de oferecer uma outra oportunidade as pessoas no sentido delas poderem mudar de decisão.

Primeiramente, esta idéia pressupõe que Deus não deu oportunidades as pessoas antes de elas morrerem, ou que simplesmente não houve tempo suficiente para o indivíduo tomar uma decisão, e isto se trata evidentemente, de uma especulação sem nenhum fundamento. Em segundo, a bíblia não dá suporte a esta idéia. O texto de II Pe 3.9 declara que Deus esta aguardando, mediante sua longaminidade, o arrependimento dos homens, e isto quer dizer que ninguém pode alegar falta de tempo. Um outro testemunho bíblico bastante incisivo, que refuta esta idéia de que não houve oportunidades antes da morte, foi elaborado pelo apóstolo Paulo em Rm. 1.20, que diz que a verdade de Deus esta claramente revelada através da obra de sua criação, portanto todos são indesculpáveis. E para aumentar ainda mais a responsabilidade do homem em relação às imutáveis leis de Deus, Paulo enfatiza, mas também amplia a idéia de Rm 1.20 em Rm 2.15, declarando que Deus colocou sua lei moral na consciência de todos os homens, tanto judeus, que tinham a lei escrita, quanto gentios, que não a tinham. Segue-se ainda o fato da bíblia, sem qualquer chance de interpretação dúbia, declarar “que aos homens está destinado morrer uma só vez e depois vem o juízo” (Hb 9.27, ver também Lc.16.26).

J.P. Moreland, filósofo e teólogo cristão, reforça o testemunho bíblico acrescentando um argumento filosófico bastante interessante. Ele diz que “se as pessoas vissem o trono do julgamento de Deus após a morte, isto seria tão coercitivo que não mais teriam a possibilidade da livre escolha e qualquer decisão que tomassem não seria uma livre escolha real e genuína, mas totalmente forçada, uma vez que estariam fazendo uma escolha prudente só para evitar o juízo[4]”. Ainda no aspecto ético-filosófico, Wayne Grudem nos lembra que Pedro não diz que Jesus pregou aos espíritos em geral, mas só aos que “noutro tempo foram desobedientes [...] enquanto se prepara a arca[5]”. E se Cristo ofereceu uma segunda oportunidade de salvação, porque só a esses pecadores da época de Noé e não a todos[6]?


[1] Citado por Henry Virkler em Hermenêutica Avançada, p. 45.
[2] Norman Geisler enumera em seu livro Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e contradições da Bíblia, os principais erros de categoria cometidos pelos críticos da Bíblia. Abordamos a número 6 que diz: basear um ensino em uma passagem obscura. Lista completa, p.18-32.
[3] Sistema teológico e filosófico que afirma (baseado mais na intuição humano do que na doutrina bíblica), que todos os homens serão salvos. Na pior das hipóteses o inferno que existe é apenas um período passageiro, uma espécie de purgatório. Mais detalhes em Enciclopédia de apologética (Norman Geisler). p.847-852
[4] Citado no livro de Lee Strobel, Em defesa da fé, p.256.
[5] Isto fala de um publico bastante limitado (I Pe. 3.20) – rebeldes [...] da época de Noé. Portanto qualquer teoria que se baseie em I Ped. 3.19 deve levar em alta consideração este contexto maior, que declara de maneira muito clara que Jesus pregou aos “espíritos em prisão” que se rebelaram enquanto se preparava a arca. Perceba que o texto não indicou o que vem a ser estes “espíritos em prisão”.
[6] Conforme argumentação de Wayne Grudem em Teologia Sistemática, p. 492.

Daniel Grubba
Soli Deo Gloria

quinta-feira, 13 de março de 2008

Eu li Hermenêutica Avançada (Henry Virkler)


Recomendo a obra de Virkler a todos aqueles que levam a sério a tarefa da correta interpretação bíblica. Para o autor a tarefa do exegeta é determinar tão intimamente quanto possível o que Deus queria dizer em determinada passagem, e não o que ela significa para mim. Pois segundo Virkler, se aceitarmos o ponto de vista de que o sentido do texto é o que ele significa para mim, então a Palavra de Deus pode ter tantos significados quantos forem seus leitores. Imagine o caos.
Neste exercício sagrado tem que levar-se em conta o abismo histórico, cultural, lingüístico e filosófico que obstruem a compreensão exata das escrituras. Para tanto o autor propõe de maneira clara e objetiva alguns passos para transpor estes abismos que separam o leitor moderno do mundo bíblico.
Acredito que após ler este livro muitos abandonarão o "método cabalístico" de tentar enxergar significados profundos e ocultos por detrás de cada passagem, letra e número. Certamente algo muito comum em nosso movimento carismático.

terça-feira, 4 de março de 2008

Eu li "Anatomia da pregação" - David L. Larsen

Neste livro, o pastor e professor David L. Larsen defende a importância da pregação bíblica em meio ao pos-modernismo existente em nossa sociedade contemporânea. Segundo Larsen, a igreja cresce e diminui por causa da pregação. Na maior parte do livro ele analisa os principais aspectos do desenvolvimento sermonário e propõe dicas relevantes para um aperfeiçoamento da mais fina arte, como ele mesmo define a ato de pregar o evangelho. Não é um livro didático, mesmo porque o autor não tem a intenção de ensinar pregadores a montar um sermão como é de costume dos outros livros sobre Homilética. Todo pregador ao ler este livro será levado a uma auto-análise reflexiva, e se esta foi à intenção de Larsen, acredito que foi bem sucedido. Fiquei com a sensação de que precisamos melhorar nossa comunicação, não para satisfazer nossos anseios por aplausos, mas para fazer a mensagem divina ser bem compreendida em um mundo que dá mais valor a imagens que meras palavras. “Livros não mudam o mundo, mas pessoas. Pessoas mudam o mundo". Leiam.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Eu li...Homilética da pesquisa ao púlpito (Jilton Moraes)


Homilética popularmente é conhecida como a arte da pregação. Entretanto etmologicamente a palavra homilética vem de homilia que para os antigos gregos significava conversação. Em Atos 17.15, Paulo participa de uma homilia em Atenas com os filósofos epicureus e estóicos no areópago a fim de introduzir uma nova filosofia, superior a todas outras, filosofia do Deus encarnado, morto e ressurreto, obviamente um escândalo para os gregos. Acho interessante o modo como Paulo interage usando alguns conceitos filosóficos bastante conhecidos dentre seus ouvintes. Paulo diz: Nele vivemos, nos movemos e existimos (Atos 17.28). Filosofia pura. Paulo entendia que a melhor maneira de revelar Cristo aos gentios era mergulhar no mundo deles para compreendê-los melhor e assim contextualizar a mensagem do evangelho. Algo que a igreja perdeu. Somos rápidos em atacar os críticos da nossa fé, astutos em demonizar qualquer ramo do conhecimento humano e assim nos distanciamos cada vez mais dos homens. A Homilética fundamentada em Cristo tem por objetivo transpor o abismo que existe entre Deus e a humanidade, por isso é tão importante estudarmos os melhores meios de entregarmos a mensagem da salvação. Paulo diz em I Corintios 1.21: Visto como na sabedoria de Deus o mundo pela sua sabedoria não conheceu a Deus, aprouve a Deus salvar pela loucura da pregação os que crêem. Romanos 10.14 está escrito: Como pois invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram falar? e como ouvirão, se não há quem pregue?
Certamente não houve maior e melhor pregador que Jesus, portanto, ele é nosso exemplo supremo.
Este livro de Jilton Moraes é um bom recurso para todos os pregadores. O autor aborda em linguagem comum a vida espiritual do pregador, construção do sermão passo-a-passo e outras dicas úteis para se sair bem no púlpito . Para quem deseja aperfeiçoar a arte de pregar, este livro é uma boa dica.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Eu Li Hermenêutica - Princípios de interpretação das sagradas escrituras (E.Lund & P.C Nelson)

É muito comum hoje em dia ouvirmos certos pregadores dizerem: Deus me disse neste texto, ou simplesmente; O Espírito Santo me revelou...
De fato o Espírito Santo é o melhor intérprete das escrituras. Calvino há muito tempo atrás se referia ao testemunho interior do Espírito Santo como superior à razão (Institutas 1.7.4). Até este ponto não vejo nenhum problema, mas e quando esta suposta revelação contraria aspectos importantes da doutrina cristã? Em II Pedro 3.16 está registrado:
...Os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles.
Se você não deseja estar entre os deturpadores das Escrituras é bom você aprender algumas boas regras de interpretação dos textos bíblicos no estudo da ciência conhecida como Hermenêutica Bíblica (a arte de interpretar textos).
Este pequeno livreto é útil para introduzir o estudante neste vasto campo da teologia. São 18 capítulos bastante breves, que podem ser divididos em duas partes principais. A primeira trata das principais regras de interpretação, como: A Bíblia como sua própria intérprete; a busca pelo contexto geral, definição da intenção do autor, etc. A segunda parte vai tratar dos muitos estilos literários existentes tanto no AT quanto no NT, como: figuras de linguagem, hipérbole, parábolas, etc.
Devemos sempre nos lembrar que o texto bíblico não possuiu muitos significados mas apenas um. E este significado se encontra na intenção do autor bíblico ao escrever tal texto. Porém a aplicação é diversificada.
Boa leitura.