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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Construção da identidade autônoma

Daniel Grubba


O ser humano está em busca de sua identidade - quem sou eu? - Não queremos apenas existir, queremos saber quem somos. Não é tanto "o que sou", mas principalmente "quem sou". Senão não se compreende, e mais do que isto: não encontra o sentido de sua existência. A resposta para esta pergunta existencial (quem sou eu?) só pode ser respondida pelo ministério da alteridade, do outro que me provoca a ser e principalmente do Outro, do Deus Vivo, que diz sim a nossa existência, e torna possível a formulação da nossa identidade.

O conceito da alteridade, do outro que me provoca a ser, é fundamental para a construção da nossa identidade. Repare na atividade essêncial da nominação, isto é, dar um nome. É na nomeação que o ser anônimo é integrado na comunidade dos outros e deixa de ser alguém desconhecido e incognoscível, para tornar-se uma pessoa.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O paradoxo da nossa humanidade


Por Daniel Grubba


Todos os seres humanos, sem distinção alguma, carregam dentro de si mesmos uma dimensão existêncial de paradoxos. Para alguns, isto se traduz em angustia e desespero, e para outros é apenas um desafio a ser vencido.


Todos os seres humanos, sem distinção alguma, são feitos a imagem e semelhança de Deus, e paradoxalmente também possuem uma natureza caída e corrompida, o que os teólogos costumam chamar de "consequências do pecado original"

Viktor Frankl, psicanalista vienense e sobrevivente dos campos nazistas de concentração, captou com exatidão este paradoxo de nossa humanidade quando disse que o ser humano "é o ser que inventou as câmaras de gás; mas é também aquele ser que entrou nas câmeras de gás, de cabeça erguida, com uma oração nos lábios"

O pastor e professor John Stott corrobora dizendo que "somos capazes da mais excelente nobreza e da mais baixa crueldade. Somos capazes de nos comportar por um momento como Deus, a cuja imagem fomos criados, e no momento seguinte como bestas, de quem fomos feitos para ser para sempre distintos."

É exatamente este paradoxo, que nos torna capazes de, por exemplo, jogar aviões em prédios, e ao mesmo tempo, adentrar bravamente dentro deles enquanto estão ruindo para salvar vidas.

Este paradoxo abalou as razões dos seres pensantes durante toda história humana. E foi pensando em resolvê-lo, como quem busca saída para contradições, que a filosofia antropológica se debruçou sobre o paradoxo de nossa humanidade e chegou basicamente a duas conclusões distintas. Um de seus entroncamentos mais otimistas, de tendências humanistas, enfatiza a gloria do ser humano e o coloca no centro do universo. A outra via, de orientação existencialista, vai ao extremo oposto, é pessimista e beira ao desespero.

Penso que ambas tradições filosóficas nos ajudam a compreender a dimensão de nossa humanidade, mas nenhuma delas consegue ser tão equilibrada quanto a proposta que somente o cristianismo autêntico estabelece como o realismo radical da Bíblia. "As Escrituras preservam o paradoxo, a saber: a glória e a vergonha de nossa humanidade, nossa dignidade e nossa depravação" diz John Stott.

Não sei quanto a você, mas sou um daqueles que em virtude destes paradoxos interiores, revolve-se em uma dolorosa dialética entre cinzas e glória, entre fraquezas e conquistas. Fico deprimido, angustiado, perco-me em meio as inconstâncias do meu ser e entro em desespero frente aos meus desvios de conduta. No entanto, tenho a absoluta convicção de que serei completamente purificado e absolvido da degradação do meu pecado e viverei a plenitude que só é possível ao novo coração que recebi do Pai.

Porque mais forte que nosso paradoxo, é a oferta revolucionária do Evangelho. Pois Cristo morreu para nos purificar e, pela obra regeneradora de seu Espírito Santo, ele pode nos tornar novos.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Teologia filosófica é...


"...o ramo da teologia cristã que procura apresentar uma explicação racional para as verdades afirmadas pela fé cristã".
(William L. Craig)

"...o empenho para 'encontrar o ponto em comum' entre a fé cristã e as demais áreas da atividade intelectual".
(Alister E. McGrath)

"...o conhecimento de Deus que temos por meio da razão, independente de qualquer autoridade especial tal como a Igreja ou a Bíblia".
(Millard Erickson)

"...o conhecimento humano provisório sobre o mesmo e único Deus que a mensagem cristã proclama. Porém, distingue-se da teologia revelada, que é o conhecimento que se tem a partir da revelação histórica de Deus em Jesus Cristo".
(Wolfhart Pannenberg)

"...o estudo racional de Deus, ou seja, é o estudo da existência, natureza, atributos, operações de Deus, tais como podem ser captados pela inteligência humana ao refletir sobre os fenômenos que podemos experimentar neste mundo".
(Battista Mondin)

"...a tentativa de explicar o conteúdo da mensagem cristã a partir das questões de ordem última levantadas pela filosofia".
(Paul Tillich)
____________________
Fonte: Blog do Jonas Madureira

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Nietzsche, esse louco!



Por Luiz C. Leite

"A última coisa que eu haveria de prometer seria 'melhorar' a humanidade. Eu não haverei de erigir nenhuns novos ídolos... derribar ídolos (a minha palavra para ideais), isso sim é que faz parte do meu ofício".

Ler Nietzsche é perigoso para os despreparados. Poucos ultrajaram o sistema, e em particular, a sociedade cristã de forma tão agressiva e sangrenta quanto ele. Sua filosofia demolidora pode despertar aquele que sonha, e pior, conduzí-lo a um pesadelo. Segundo Freud, Nietzsche alcançou um grau de introspecção anímica jamais alcançado por alguém e que dificilmente alguém voltará a alcançar um dia.

Esse olhar para dentro, que faz com que os homens despertem da doce ilusão com a qual seus muitos ídolos os envolvem, é ao mesmo tempo um exercício desejável e assustador. Quantos de nós estão preparados para a desilusão de um encontro frontal com sua alma desnuda? Quantos estariam preparados para encontrarem-se com o homenzinho encarquilhado e, humildemente reconhecer: "Esse sou eu!"

A natureza humana tenta esconder por todos os meios o homenzinho encarquilhado, mas de que adianta negá-lo, escondê-lo, se ele teimosamente permanece lá? Nietzsche encontrou-se com a verdade a respeito de si mesmo, o homem caído, e fez questão de publicar as misérias e mazelas da espécie. Não considerou que essa criatura falida poderia nascer de novo para uma realidade outra. Que pena que não tenha ído, na calada da noite, às escondidas, se encontrar com Jesus, como fez Nicodemos, para ouvir a respeito da possibilidade fantástica do novo nascimento!

Por mais trágico que pareça, o homem não é um caso perdido. Nietzsche infelizmente falhou em reconhecer no Cristo a salvação dos homens e tentou aniquilar a única esperança que resta à humanidade, investindo enlouquecidamente contra o mesmo... Perseguiu a Jesus e a seus seguidores como um Saulo enraivecido...Resultado? Morreu louco!

Será que, como Saulo de Tarso, teve a oportunidade de ouvir o som da voz majestosa que despedaça os cedros do Líbano a dizer-lhe: "Nietzsche, Nietzsche, por que me persegues? Dura coisa é para ti recalcitrar contra os aguilhões" Espero que sim, e mais, espero que tenha feito as pazes com o Crucificado antes do rompimento do fio de prata, antes do último suspiro...

Filho e neto de pastores protestantes, quem sabe não voltou pra casa, como um pródigo mulambento, mas salvo? Agora imagine, que surpresa seria encontrarmos esse maluco nas mansões celestiais! Pois é, só aguardando...

***

Luiz C. Leite é pastor, psicanalista, administrador de empresas, conferencista e escritor. Autor de "O poder do foco", editora Memorial; e "A inteligência do Evangelho", editora Naós; além de vários títulos por publicar.

Confira o blog do escritor: http://luizvcc.wordpress.com/

Fonte: Guia-me

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Tédio


"Nada é mais insuportável para o homem do que estar em pleno repouso, sem paixões, sem afazeres, sem divertimento, sem aplicação. Ele sente então todo o seu nada, seu abandono, sua insuficiência, sua dependência, sua impotência, seu vazio. Imediatamente nascerão do fundo da alma o tédio, o negrume, a tristeza, a mágoa, o despeito, o desespero."

*Blaise Pascal (1623-1662) em Pensamentos*

sexta-feira, 26 de junho de 2009

O ser humano na visão dos filósofos


Ontem (25/06) tive o grande privilégio de assistir uma palestra com o filósofo e professor da PUC, Luis Felipe Pondé (foto), que abordou o tema "O ser humano na visão dos filósofos".


Para poder definir ou apresentar definições acerca do gênero humano, Pondé começou o discurso abordando o nascimento da Filosofia Ocidental ainda na antiga Grécia e o contexto de seu aparecimento. Segundo o filósofo da PUC, a filosofia como a entendemos hoje, nasceu porque alguns resolveram pensar sistematicamente acerca das questões mais elementares: De onde viemos? Porque existimos? E para onde vamos? No entanto, a mitologia e os poetas trágicos já tinham estabelecido as respostas mediante as narrativas mitológicas. O que então fizeram estes pensadores pré-socráticos? Assumiram uma postura negativa diante da mitologia e passaram a dizer: Não, não queremos estas respostas mitológicas, vamos procurá-las mediante a razão somente. Começa então a filosofia e a busca pela essência da existência sem o aparato mitológico. Segundo Pondé, a filosofia é uma tradição que surge na Grécia (conceito histórico).

O que é ser humano? Podemos defini-lo ou não?

As respostas são intermináveis, portanto é mais fácil narrar o ser humano dizendo: Ser humano é "tipo gente que nem nós", é um ser questionador com sede de saber, e um sujeito que vive na história.

A definição aristotélica é interessante pois postula em diferenciação. Ou seja, existe a alma vegetativa (plantas), alma sensorial (animais) e alma intelectual (homem racional). E o último é inerente apenas a nós, portanto humano por definição é um ser racional.

Mas afinal de contas, de onde viemos?

Pondé discorreu de forma brilhante as principais variáveis elaboradas ao longo da história, desde os pré-socráticos até os pensadores modernos. E colocou todos no auditório em uma grande aporia ou em um impasse que desassossega. Posto que, não há uma resposta definitiva, mas tentativas que vem de todos os lados e tradições, sejam elas religiosas ou não.

Onde está, no entanto, a razão de pensarmos filosoficamente acerca do homem?

De acordo com Pondé, a filosofia contribui na evolução do homem e no seu processo de crescimento-amadurecimento. Pois segundo ele, a filosofia ousou dizer a raça humana que o homem não está aprisionado pelo destino dos deuses da mitologia (sempre irritados e inconstantes) conforme as antigas tradições, e que pode assim contribuir na construção de seu próprio destino. Isto é, podemos melhorar e aperfeiçoar nosso caminho ético e moral.

Chegando ao fim da palestra, Pondé falou sobre as concepções mais modernas elaborados pelos pensadores darwinistas, construtivistas e também marxistas. O que obviamente ajudou ainda mais a bagunçar a cabeça do povo.

Em suma, ninguém tem respostas filosóficas definitivas, nem uma concepção filosófica, senão concepções (plural).

***

Bom, o que temos haver com isso?

Veja só: Este discurso todo é extremamente importante para a sociedade pois qual seja a definição que dermos ao homem, seja religiosa ou não, automaticamente desembocará em algum tipo de implicação moral e ética em resposta a esta concepção. Veja: Se alguém diz que "os homens não são iguais" e que não adianta tentar aproximá-los, a sociedade se organizará para defender e sustentar as diferenças. Se por outro lado alguém disser que "somos todos iguais", então a sociedade se organizará para lutar pelos direitos da igualdade. A resposta que escolhermos demandará visões políticas bem distintas.

Qual meu palpite como estudante de teologia?

Nós somos o sujeito contigente. E existe o objeto. O problema em estudar o gênero humano e tentar defini-lo é que nós "o sujeito da questão" está analisando um objeto, que somos nós mesmos - "o sujeito". É um círculo vicioso. Portanto, precisamos de um sujeito que está acima de nós para poder explicar o sentido de nossa existência. E este sujeito é Deus.

*****

Luiz Felipe Pondé, pernambucano, é escritor, filósofo e ensaísta. Doutor em filosofia pela USP, é professor do Departamento de Teologia da PUC-SP, da Faculdade de Comunicação da FAAP e professor convidado da pós-graduação de ensino em ciências da saúde da Universidade Federal de São Paulo. É autor de “O Homem Insuficiente” (Edusp) e “Crítica e Profecia – Filosofia da Religião em Dostoievski” (Editora 34), entre outros. Escreve às segundas-feiras no caderno Ilustrada da Folha.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Filosofia e Cristianismo

Texto: Daniel Grubba

Wolfhart Pannenberg postula sobre quatro definições formalmente possíveis na história da relação entre filosofia e teologia (cristianismo) :

A relação entre filosofia e teologia foi concebida (a) como oposição e, por outro lado, procurou-se (b) identificar ambas. Além disso, (c) subordinou-se a filosofia à teologia ou, inversamente, (d) a teologia à filosofia (2008, p.17).

A filosofia como serva da teologia (ponto c de Pannerberg) é nossa opção intelectual-existencial e o que vamos procurar a partir de agora argumentar positivamente. Pois “em certo sentido, a teologia, e não a filosofia, é o domínio mais importante para o pensamento e o intelecto”. (CRAIG & MORELAND, 2005, p.17).

Proclamação do evangelho e apologética

William L. Graig e J.P. Moreland (2005, p.28), renomados filósofos cristãos contemporâneos, são categóricos em dizer que “a filosofia vem desempenhando um papel importante na vida da igreja e na difusão e defesa do evangelho”. E isto nos leva a acreditar que o cristão deve estar habilitado na arte clássica e filosofia de seu tempo e assim usá-la para o beneficio da fé, tanto para difundir o evangelho quanto para defendê-lo dos ataques intelectuais dos opositores.

A proclamação evangélica de Agostinho

Um grande exemplo deste tópico é Agostinho. Foi ele que de modo brilhante se apropriou criticamente da cultura clássica e filosofia para ser posto a serviço do evangelho. Alister Mcgrath faz uma leitura interessante sobre a nobre tarefa deste grande teólogo pratístico:

Para Agostinho, a situação era comparável a fuga de Israel do cativeiro do Egito, à época do Êxodo. Embora tenham deixado para trás os ídolos do Egito, levaram consigo o ouro e a prata para que pudessem fazer um uso melhor e mais apropriado dessas riquezas, que estavam assim disponíveis para servir a um propósito mais nobre que o anterior. De forma bastante semelhante, a filosofia e a cultura do mundo antigo poderiam ser apropriadas pelos cristãos, naquilo em que fossem corretas, e assim poderiam servir a causa da fé cristã (2005, p.53).

A defesa racional de Tomas de Aquino

A apologética também foi beneficiada pelo uso da filosofia. Foi a partir do século XIII que a reflexão filosófica se tornou um valioso recurso para a defesa racional do cristianismo, através da recepção do aristotelismo. Deste modo, mediante o uso da lógica aristotélica, Tomas de Aquino pode “explicar de modo atrativo a fé cristã ao mundo islâmico“(MCGRATH, p.86). Uma de suas grandes obras, Summa contra gentiles, escrita entre 1259 e 1264, foi desenvolvida para uso dos missionários dominicanos que pregavam contra os mulçumanos, judeus e cristãos heréticos da Espanha (WALKER, 2006, p.398).

Ainda sobre a apologética, Craig e Moreland afirmam que “quando uma objeção contra o cristianismo parte de alguma disciplina de estudo, tal objeção quase sempre envolve o uso da filosofia” (2005, p.31). E é justamente por isso que devemos estar preparados filosoficamente para responder todo aquele que pedir a razão de vossa fé (I Pe 3.15) e “comunicar o cristianismo de tal forma que nossa geração possa entender” (SCHAEFFER, 2002, p. 212). Norman Geisler, preocupado com o preparo intelectual dos cristãos, diz que:

...ninguém pode argumentar melhor em prol da verdade do que quando é treinado em argumentação filosófica, pois a tarefa apologética envolve a construção de bons argumentos e fornecimento de boas evidências para justificar a verdade básica do cristianismo (2002, p.62).

Nancy Pearcey, autora americana e estudiosa em Francis Schaeffer, nos alerta para o desafio intelectual que devemos enfrentar nos dias de hoje. E orienta os jovens a buscarem uma nova espiritualidade.

Os jovens crentes precisam de uma religião de cérebro – educação em cosmovisão e apologética – para equipá-los na análise e crítica de cosmovisões concorrentes que eles encontraram mundo afora (2006, p.22).

Elevar ousadia e auto-imagem da comunidade cristã

Não precisa ser nenhum sociólogo para descobrir que os evangélicos de um modo geral têm muita pouca representatividade na sociedade moderna. Parece que o discurso “não somos deste mundo” tem desencadeado processos de alienação histórica de boa parte da cristandade. Julgamos que o mundo é do maligno e nos recusamos a iluminar o mundo e salgar a terra. Todavia, a boa filosofia, deve nos levar a reverter estes processos mediante a reflexão e práxis cristã. Craig e Moreland afirmam que “historicamente, a filosofia tem sido a principal disciplina a auxiliar a igreja na sua relação com os incrédulos” (2005, p.33).

Conclusão

Procuramos neste breve ensaio mostrar a importância da interação entre cristianismo e filosofia. Assim como abordamos as objeções dos que rejeitam ou evitam o uso da filosofia na reflexão teológica e também os motivos pelos quais devemos nos apropriar da filosofia, sempre tendo em vista o benefício da fé crista. Devemos reconhecer que pela pobreza e escassez dos argumentos ainda pode restar à dúvida: Será que a filosofia é realmente necessária para a tarefa apologética e para o cristianismo de modo geral? C.S. Lewis, um dos gigantes intelectuais do século XX, responde:

Ser ignorantes e simples agora [...] seria abrir mão de nossas armas a trair nossos irmãos sem formação acadêmica, que, abaixo de Deus, não tem nenhuma defesa contra ataques intelectuais dos pagãos, a não ser a defesa que lhe podemos oferecer. A boa filosofia deve existir. Se não por outra razão, porque a má filosofia precisa de resposta (2008, p. 61).

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Objeção a reflexão filosófica (parte III)



Na primeira parte deste breve ensaio abordamos a objeção bíblica no que diz respeito a reflexão filosófica. Na segunda parte vimos a objeção teológica. Agora vejamos na parte III: Objeção Dogmática.

Objeção dogmática

Chamo este ponto de objeção dogmática, pois é a mais infundada de todas as objeções. É pura e simplesmente baseada no senso comum, que por sua vez é o pensamento de quem tem preguiça de pensar. É uma objeção fundamentalista e epistemologicamente desprovida de seriedade. Ou seja, o dogmático apenas versa sobre algo como enxerga este algo, ou como ele aparece ser e não como é de fato. Então, se a maioria dos filósofos são ateus e hostis ao cristianismo, a filosofia passa a ser sinônimo de incredulidade. Ora, quer dizer que se a maioria dos pastores são “a pior espécie de hipócritas”, todos devem ser? Claro que não, Deus tem seus remanescentes, alguns que não se dobram a Baal, inclusive na filosofia.

Quanto a esta precipitada constatação (de que toda filosofia é ateísta) devemos ir com calma. Luis Sayão nos diz que “ainda que fosse verdade, a validade da filosofia não estaria necessariamente ameaçada” (2001, p. 8). Ora, quando você vai ao médico você não está interessado se ele é cristão ou não, mas se ele é um bom profissional. E nem quando lê o jornal e a revista semanal fica questionando se quem escreveu é cristão, apenas queremos a verdade dos fatos noticiada fielmente, e isto porque sabemos que a graça comum de Deus permeia toda a existência, de modo que a verdade é a verdade quem quer que seja seu portador.

Este aspecto ontológico da verdade deve nos fazer lembrar aos dogmáticos que por outro lado, temos filósofos de destaque em toda história que acreditavam de todo coração nas verdades cristãs. Nomes como Agostinho, Anselmo, Aquino, Blaise Pascal e Kierkegaard são grandes exemplos.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Objeção a reflexão filosófica (Parte II)

Texto: Daniel Grubba

Na primeira parte deste breve ensaio abordamos a objeção bíblica no que diz respeito a reflexão filosófica. Agora vejamos na parte II: Objeção Teológica.

Tertuliano

Todas as críticas da interação cristianismo-filosofia parecem remontar a Tertuliano (séc. I-II), advogado romano do século III que se converteu ao cristianismo. É bem provável que ele tenha sido o primeiro a questionar o papel da filosofia para a compreensão dos conteúdos evangélicos e também o primeiro a negar aos cristãos o acesso a herança intelectual e cultural para propósitos evangelísticos. Wolfhart Pannenberg (2008, p.18) confirma este dado:

"A concepção de que a doutrina cristã nada tem haver com a filosofia, e que toda ligação com o pensar filosófico seria paga com o preço de sua autenticidade como teologia da revelação, reiteradamente se tem reportado a Tertuliano como seu ancestral ".

Sua famosa pergunta retórica ecoa até hoje: “Que relação há entre Atenas e Jerusalém? Que importância tem a Academia de Platão tem para a igreja?” A resposta parece ser clara para Tertuliano: o cristianismo deve se manter distante da reflexão filosófica não importa quão louvável sejam os motivos.

Porém, é no mínimo estranho Tertuliano ter questionado o papel da filosofia, uma vez que ele era alguém versado no conhecimento , apologista da fé cristã e profissional em retórica . No entanto, a resposta parece estar em seu rigoroso ascetismo e exagerado conceito de santidade. Para Tertuliano a igreja deve se manter santa e incontaminada, e este conceito seria o cerne de sua teologia. Wiliston Walker (2006, p. 98) diz que observar as palavras de Deus, segundo Tertuliano, significa uma existência separada do mundo, o qual tinha o culto idólatra dos demônios. Maurice Nédoncelle (1905-1976), filósofo e teólogo francês, também observa que:

"Para ele (Tertuliano), heréticos e filósofos são uma coisa só: fazem as mesmas perguntas, exploram os mesmos domínios, perguntam-se de onde vem o mal, porque e de onde vem o homem, como é constituído o universo, etc. Eles respondem com o auxilio de princípios obscuros que acham peremptórios e que se reduzem a palavras pedantes e ridículas" (1958, p. 33).

Para não fazer injustiça a importância de Tertuliano na história do cristianismo, Norman Geisler (2002, p. 825-826), renomado apologista cristão, sai em sua defesa dizendo que Tertuliano é acusado falsamente de irracionalismo, e que apesar de sua forte influencia na fé, ele acreditava que havia um papel importante para a razão humana na defesa da religião cristã.

Karl Barth

Alister Macgrath (2005, p.260), professor de teologia histórica na Universidade de Oxford e um dos mais influentes pensadores cristãos da atualidade, sugere que a atitude mais negativa diante da interação cristianismo-filosofia, adotada na teologia cristã recente, tenha sido a de karl Barth. Porém, isto não quer dizer necessariamente que Barth fosse contra o estudo da filosofia , ou um antiintelectual. Barth na verdade por seu próprio mérito se veio a firmar-se como um grande intelectual. Sua crítica, no entanto, era contra o uso da filosofia e revelação natural como um ponto de contato (Anknüpfungspunkt) da revelação divina com a natureza humana para fins evangelísticos. Para Barth, Deus não precisa de nenhuma ajuda para tornar-se conhecido. Quanto a este assunto, ele diz:

"Deus não se dá a conhecer pelos poderes do conhecimento humano; só se pode apreendê-lo, e ele só se deixa apreender por causa de sua própria liberdade, decisão e ação" (BARTH apud MACGRATH, 2008, p.30).

A critica que se faz da teologia existencialista de Barth, pelo menos por parte dos apologistas-polemistas da fé cristã, é justamente o caráter fideista do sistema barthiniano. Francis Schaeffer (2007, p.43) em A morte da razão diz que no existencialismo religioso de Barth “não há lugar para a razão e nem ponto de verificação”. E segundo Alister Mcgrath, isto é um problema que se volta contra o próprio sistema neo-ortodoxo barthiniano. Ou seja, como a alegação de Barth é exclusivamente baseada na revelação divina, ela não pode ser avaliada senão por essa mesma revelação, desembocando necessariamente em um círculo vicioso. Em outras palavras, Mcgrath diz que “não existem pontos de referências externos, pelos quais as alegações da neo-ortodoxia possam ser verificadas” (2005, p.145).

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Objeção a reflexão filosófica (Parte I)

Texto: Daniel Grubba

A interação entre filosofia e cristianismo é uma relação de amor e ódio. Desde os primórdios da fé cristã até os dias modernos esta parece ser uma questão ainda não resolvida.

Os que advogam a irrelevância do conhecimento filosófico para o cristianismo, naturalmente se armam de uma série de argumentos filosóficos e sem querer tornam-se contraditórios, pois argumentam mediante um processo que condenam. E foi por esta ironia que o filósofo e matemático francês Blaise Pascal disse: “Zombar da filosofia é, em verdade filosofar” (PASCAL apud SAYÃO, 2001, p.10). Isto é, todo aquele que ridiculariza o exercício filosófico, somente o faz através de uma reflexão filosófica. Entretanto, a questão é a qualidade desta reflexão, se é consistente ou não. Vejamos então as principais objeções dos críticos da interação entre o cristianismo e a filosofia.

Objeção bíblica

A primeira objeção sempre parecer ser esta: textos bíblicos. E é natural que seja assim. Isto porque este tipo de crítico da interação cristianismo-filosofia, pela pobreza de alcance de sua argumentação filosófica, sempre se valerá de algum versículo que encerre a discussão sem maiores reflexões. Seu método argumentativo, em virtude da preguiça intelectual, se dá através do caminho mais rápido e fácil: a recitação de versículos antiintelectuais.

Vejamos apenas dois textos comumente usados para refutar o estudo da filosofia: Colossenses 2.8 e 2 Coríntios 3.6

Colossenses 2.8 – Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo.

Uma leitura superficial parece sugerir uma condenação paulina acerca do exercício filosófico. Todavia, um estudo mais detalhado do contexto histórico-religioso da igreja em Colossos deixa claro que Paulo não estava condenando a filosofia em si, mas um tipo específico de filosofia: a filosofia vã e enganosa. De acordo com as evidências externas e internas do texto, é possível que Paulo esteja condenando um sistema de pensamento sincrético, que mistura elementos judaizantes e gnósticos . Além do mais, Paulo era um ex-fariseu, erudito da principal academia judaica do primeiro século (escola de Hillel) e um profundo conhecedor da filosofia e literatura grega (Atos 17.27, 28; Tito 1.13,14). Cabe uma pergunta aqui: Como Paulo poderia condenar algo que, em algumas ocasiões serviram para ele como “ponto de contato” com a cultura específica de um determinado local, conforme mostra com exatidão o registro de sua homilia com os filósofos de Atenas (Atos 17.15-34)?

2 Coríntios 3.6 – Ele nos capacitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito; pois a letra mata, mas o Espírito vivifica.

Este texto parece ser o mais usado contra aqueles que procuram desenvolver uma vida intelectual no ambiente cristão, principalmente os que declaram seu “amor pela sabedoria” (significado etimológico da palavra filosofia). Eu mesmo cansei de ouvir esta ameaça: irmão cuidado, a letra mata! Na verdade, eu sei que meus irmãos não fazem por mal, pois a sinceridade de sua crítica ao intelectualismo reside no fato de que no processo do acúmulo cognitivo do saber, muitos cristãos se tornam inoperantes e improdutivos no pleno conhecimento do Senhor (2 Pedro 1.5-9). Todavia, uma coisa é a experiência do fracasso espiritual de alguns, outra complemente diferente é usar um texto fora de contexto. Trata-se, pois, de um argumento falacioso.

Como este breve ensaio não tem objetivo exegético, basta elucidar que o texto bíblico em questão não se refere a reflexão filosófica ou ao estudo diligente das letras, mas aborda o perigo do legalismo. Isto é, ao fatal apego a Lei mosaica para a salvação. E por esta razão, a afirmação de Paulo é contundente em dizer que a “letra mata”. A perícope de 2 Co. 3.1-18 é uma questão teológica tipicamente paulina. De acordo com Rick Nañez “a letra a que Paulo se refere é simplesmente a lei da antiga aliança” (2007, p.70).

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Da intolerância exegética


A fúria que inspiraram o espírito dogmático e o abuso da religião cristã malcompreendida já derramou sangue o bastante; já produziu desastres na Alemanha, na Inglaterra, até mesmo na Holanda quanto na França [...] A tolerância nunca provocou guerras civis; a intolerância cobriu a terra de morticínios [...] O direito da intolerância é, portanto absurdo e bárbaro; é o direito dos tigres, sendo bem mais horrível também, porque os tigres dilaceram suas presas para comer, enquanto nós nos exterminamos por causa de alguns parágrafos"

Voltaire (1694-1778) em Tratado sobre a tolerância, p. 29-39.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Vinho Novo


Sempre haverá esperança. Enquanto houver inconformados neste mundo haverá esperança. Se por outro lado prevalecer a introjeção do status quo, não resta nada, a não ser o lamento de quem busca a beleza da vida.

Estou decidido a buscar Deus nos lugares inesperados, posto que na pomposa cidade templária de Jerusalém existe a forma, mas na estrebaria fétida de Belém existe a essência. E se na face do estereótipo da religião existe a perversidade da implacável acusação, nas lágrimas da prostituta que beija os pés do Mestre existe a graça. É assim, uma vez que a totalidade do que é belo (e analisando o belo como um efeito), tem uma causa: o Deus das belezas infindáveis - Causa primeira.

Todo dom perfeito vem do pai das luzes, e neste negócio não há monopólio. O dom é tão livre quão livre é o doador da vida eterna, e quem quiser detê-lo é tão louco quanto o que diz possuir autoridade sobre a luz do sol. E por estar demasiadamente exposto as insanidades dos que se dizem detentores do exclusivo poder divino, que anseio desesperadamente o vinho novo em odres novos. Os odres da minha existência estão rachados, resultado de exaustivos goles dos empobrecidos vinhos da religião.

Quero experimentar a vertigem da liberdade, quero amar com profunda devoção o Deus encarnado no meigo rabi da Galileia, e livrar minha alma de uma vez por todas da falsa imagem que criei de uma divindade mesquinha e limitada. Como disse o filósofo Blaise Pascal; "Deus fez o homem a sua semelhança e o homem, em retribuição criou fez Deus à sua imagem". Ora, Deus nos fez belos sendo ele a Beleza por essencialidade, e nós o tornamos de uma tal feiura tiranizada. Um deus feio que detesta a liberdade da expressão da pura arte e nos impede de viver a transcendentalização de nossas misérias.

Que nosso propósito seja conhecer e prosseguir em conhecer o Deus de todas as belezas e divinidade das coisas belas, contemplando nelas os arquétipos de um mundo chamado Nova Jerusalém, cidade do Autor da vida, posto que a velha caducou.

Meu amigo Jean-Paul Sartre (1905-1980)


Sartre é muito interessante. Na verdade estou aprendendo a me relacionar com sua filosofia existencialista. A princípio eu não gostava muito dele, minha ortodoxia preconceituosa o via apenas como um ateu perdido. Então um dia me deparei com o argumento de Sartre que questionava "se Deus é causa de tudo, então qual a causa anterior a Deus?" Passei a ponderar, procurei respostas nas cinco vias de Tomás de Aquino, depois voltei a Sartre...e fui deixando de lado seu ateísmo para entender o seu mundo.

Como um expoente do existencialismo, a preocupação de Sartre é a totalidade da existência humana, que para ele é nauseante. O homem deve descobrir o significado do ser para si. Interessante que Sartre não é diferente do existencialista que escreveu Eclesiastes, segundo o qual, a vida é pura vaidade. É igualmente monótona, pois não há nada novo debaixo do sol. Mas isto é algo não muito falado nas igrejas em virtude das palavras motivacionais e triunfalistas que esmagam a verdadeira realidade da nossa existência. Devemos ser sempre triunfantes, vitoriosos, alegres, guerreiros, endinheirados, saudáveis, é quase um super homem da fé. A existência orientada por este prisma é uma disneylandia, e ninguém que seja sincero consegue viver o tempo todo assim...O que dizer do meu Jesus? Nele que se encerra o significado de tudo e ainda diz: no mundo tereis aflições.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Porque a filosofia deve existir?



Encontrei uma resposta excepcional em um dos textos mais esclarecedores que já li. O título do texto é "A busca do saber em tempo de guerra" e o autor é alguém que considero um dos notáveis do século XX, C.S. Lewis. Com a palavra meu caro:

"Se o mundo todo fosse cristão, não importaria se o mundo todo não tivesse formação escolar. Como as coisas são, no entanto, a vida cultural existirá fora da Igreja, quer exista dentro dela, quer não. Ser ignorantes e simples agora - não estar aptos para enfrentar os inimigos em seu próprio campo - seria abrir mão de nossas armas e trair nossos irmãos sem formação acadêmica, que, abaixo de Deus, não ter nenhuma defesa contra os ataques intelectuais dos pagãos, a não ser a defesa que lhes podemos oferecer. A boa filosofia deve existir. Se não for por outra razão, porque a má filosofia precisa de resposta".

C.S. Lewis em O peso de gloria, p. 61-62

terça-feira, 5 de maio de 2009

Credo ut intelligam

Segue abaixo uma linda oração do arcebispo Anselmo de Cantuária (1033-1109).

"Senhor, reconheço, e rendo-te graças por ter criado em mim esta tua imagem a fim de que, ao recordar-me de ti, eu pense em ti e te ame. Mas, ela está tão apagada em minha mente por causa dos vícios, tão embaciada pela névoa dos pecados, que não consegue alcançar o fim para o qual a fizeste, caso tu não a renoves e a reformes. Não tento, ó Senhor, penetrar a tua profundidade: de maneira alguma a minha inteligência amolda-se a ela, mas desejo, ao menos, compreender tua verdade, que ao meu coração crê e ama. Com efeito, não busco compreender para crer, mas creio para compreender. Efetivamente creio, porque, se não cresse, não conseguiria compreender."

Aqui está uma oração de um grande filósofo medieval e também criador do argumento ontológico. Além da espiritualidade linda expressa na oração, Anselmo coloca as coisas em seus devidos lugares: a razão a serviço da revelação para fortalecer a fé, é crêr para poder compreender (Credo ut intelligam).

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Memorial de Blaise Pascal (1623-1662)



Blaise Pascal (1623-1662) foi um grande matemático e filosófo francês. Era contemporâneo e conterrâneo de René Descartes, e apesar das muitas semelhanças (ambos eram matemáticos) não seguiu o método racionalista cartesiano, mas apelou ao coração. Pascal era um homem do pathos (paixão em grego). Depois de sua morte um empregado encontrou um bilhete costurado em sua roupa, considerado seu testamento, que sempre carregava consigo. Neste memorial escreve:

"Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó, e não dos filósofos e dos sábios. Certeza, certeza, sentimento, alegria, paz. Deus de Jesus Cristo. Deus meu e Deus vosso. "Teu Deus será meu Deus". Esquecido do mundo e de tudo, exceto de Deus. Não se encontra a ele fora do caminho ensinado no Evangelho. Grandeza da alma humana. "Pai justo, o mundo não te conheceu, mas eu te conheci". Alegria, alegria, lágrimas de alegria. Dele me separei: deriliquerunt me fontem aquae vivae. "Meu Deus, vós me abandonareis?" Que não me separe dele eternamente. "Esta é a vida eterna: que eles te conheçam a ti, o Deus único e verdadeiro e aquele que tu enviaste, Jesus Cristo. Jesus Cristo. Jesus Cristo. Eu me afastei dele, evitei-o, neguei-o e crucifiquei-o. Que eu jamais dele me separe. Não se conserva a não ser pelos caminhos ensinados no Evangelho. Renúncia total e doçura. Submissão total a Jesus Cristo e a meu diretor. Alegria eterna por um dia de provação na terra. Non obliviscar sermones tuos.
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Fonte: ZILLES, Urbano. Filosofia da religião. Editora Paulus.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Alienação do ser



Manter o sujeito alienado e inconsciente é uma das maneiras mais eficazes de manipulá-lo. Manipular é roubar a identidade singular do indivíduo destituindo-o de sua própria existência. E é exatamente neste processo lento da morte do ser que os sistemas de opressão legitimam suas ações e obstaculizam qualquer forma de processo libertário. A estrutura da opressão, enquanto preserva a alienação da consciência, introjeta da mente do oprimido todo seu desprezo por ele e sua insignificância, de modo que a mentira propagandista do opressor torna-se a verdade existencial da sujeito histórico. Assim sendo, na prevalência da ausência da reflexão, na introjeção desta mentira que se torna verdade para o ser, a única realidade possível é a conformização do status quo. Se ao menos houvesse alguém que estivesse disposto a refletir, disposto a pensar os pensamentos de Deus. É assim, que na reflexão, no despertar de consciências letárgicas, nasce a pulsão pela ação. Reflexão que desperta a si mesmo do sono dogmático e torna possível a transformação da imutabilidade. Liberdade é o grito do alma que vive!E foi para a liberdade que Cristo nos salvou.

Vinde a mim, todos os que estão cansados e oprimidos e eu os libertarei - Jesus de Nazaré

terça-feira, 28 de abril de 2009

A origem da desigualdade segundo Rousseau (1712-1778)

Qual a origem da desigualdade entre os homens?

Esta pergunta atual, contundente e complexa fascinou Rousseau em meados do século XVIII. O filósofo, impressionado com a grandiosidade da questão, produziu o Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entres os homens (1755). Rousseau sustenta sua argumentação em dois pilares: instituição da propriedade privada e a ambiguidade da própria civilização.

Quanto a questão da propriedade privada, leia o que o próprio diz:

"O primeiro que, as cercar um terreno, teve a audácia de dizer isto é meu e encontrou gente bastante simples para acreditar nele foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quanto crimes, guerras e assassinatos, quantas misérias e horrores teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas e cobrindo o fosso, tivesse gritado aos seus semelhantes: "Não escutem esse impostor! Estarão perdidos se esquecerem que os frutos são de todos e a terra é de ninguém!"


Obs: Acho que descobri de onde o camarada Marx tirou algumas de suas idéias...rs..

Rousseau, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. Porto Alegre, RS: L&PM, 2008.

segunda-feira, 2 de março de 2009

O que aprendi com Sören Kierkegaard



Meus primeiros contatos com o pensamento de Sören Kierkegaard se deram através da perspectiva do outro, isto é, tudo que sabia a seu respeito era baseado na leitura e interpretação de terceiros. Me foi dito que seu método de investigação cognitiva era guiado por um processo de suspensão racional. Que também era considerado "pai do existencialismo". E mais, responsável indireto pela escola fideísta (a fé é um salto no escuro). Tudo dito por alguém que o leu e o julgou, principalmente pelos "defensores da fé". Portanto, como um estudante de apologética, aprendi a vê-lo com toda sorte de preconceitos possíveis, olhando sempre pelo lado negativo, e tudo isto antes mesmo de conhecê-lo. O que é isto senão dogmatismo?

Resolvi ler e tirar minhas conclusões. Ainda sei muito pouco sobre sua obra, mas o que aprendi?



Que a atitude dogmática nos afasta da verdade, sufoca o livre diálogo e reduz o ser a um esteriótipo vazio de significado. Sim, estava sendo dogmático.


Que seu conceito de fé não invoca o irracional, mas coloca a fé acima da razão. Não suspende o raciocínio, mas não se prende absolutamente a ele. Para Sören, fé é crer no Absurdo.


Que a fé pertence ao mais alto grau de elevação existencial. A fé é superior a estética e a moral.


Saindo do campo filósofico das idéias, aprendi principalmente que não devo julgar quem quer que seja, a partir da análise de terceiros. Devo tirar minhas próprias conclusões a partir da minha própria reflexão. Se quero fazer uma crítica a um escritor, por exemplo, deve lê-lo em primeira mão.


Enfim, leia tudo e tire suas conclusões. Faça isto pelo bem da tua alma. E mais, leia não só os livros, mas os fatos, a vida, a história. Se você assim não fizer, alguém fará por você. Ai você perderá a capacidade de analisar, se tornará um fundamentalista, repetidor de discurso e a verdade estará longe do teu coração.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Futebol filosófico (Grécia vs. Alemanha)