sexta-feira, 31 de julho de 2009

A sedução de Mamom

Por Ed René Kvitz


Jesus chamou o dinheiro de Mamom: “Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e a Mamom” (Mateus 6.24; Lucas 16.13).

Isso significa que para Jesus o dinheiro é um poder, muito parecido com uma divindade que exige adoração, submissão e lealdade, e determina como seus adoradores / escravos devem viver.

O senso comum utiliza o comentário do apóstolo Paulo para dizer que o dinheiro em si não é o problema, pois apenas “o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males” (1Timóteo 6.10). Mas Jesus adverte que o dinheiro não é neutro, mas algo como um organismo vivo, com uma força sedutora quase irresistível, quase um demônio, na verdade, uma potestade: uma coisa que funciona como se fosse uma pessoa. Alguém sugeriu que “Mamom é dinheiro elevado à categoria de deus”, mas acredito que todo dinheiro é Mamom: um bicho que deve ser domado e controlado com as rédeas curtas da autoridade espiritual de Jesus.

Jesus ensina que o dinheiro é uma riqueza menor e falsa, própria de um sistema social injusto e opressivo, organizado contra os valores e interesses do reino de Deus que visa sempre a justiça e paz (Lucas 16.9-13). O dinheiro é, portanto, considerado por Jesus um dos maiores tropeços para a fidelidade a Deus e ao reino de Deus, já que “é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus” (Mateus 13.22; Lucas 12.13-21; 18.18-25), e por essa razão deve ser tratado com o cuidado de quem manuseia nitroglicerina: qualquer movimento em falso a coisa explode na cara.

Jesus recomenda enfaticamente que você se esforce para domar o dinheiro antes que ele se torne o senhor do seu coração. As sugestões de Jesus são simples e desafiadoras. A primeira coisa a fazer é se livrar de todo e qualquer dinheiro ganho desonestamente: restituir a quem de direito ou doar aos pobres (Lucas 19.1-10). A segunda proposta de Jesus é praticar generosidade. O dinheiro funciona com a lógica da conquista e do mérito - “quem não tem competência não se estabelece”, e da dominação - “quem paga, manda”. A doação generosa - “fazer o bem sem ver a quem”, quebra o encanto desse tirano chamado Mamom (Lucas 10.25-37). A terceira recomendação de Jesus é transportar o dinheiro da terra para o céu: transformar riquezas efêmeras em riquezas eternas, que em termos práticos significa que pessoas, caráter, dignidade, justiça valem mais que coisas e dinheiro (Mateus 6.19-21; Lucas 16.9-12). Finalmente, Jesus recomenda que o dinheiro seja colocado em circulação para gerar riquezas coletivas: investir, fazer negócios, movimentar a ciranda das riquezas para beneficiar o maior número possí­vel de pessoas (Mateus 25.14-30; Lucas 16.19-31; 19.11-27).

Tudo quanto Jesus falou a respeito de dinheiro deriva de sua compreensão básica - que para variar contraria absolutamente o senso comum (Mateus 6.19-34). Jesus acredita que não é o dinheiro que segue o coração, é o coração que segue o dinheiro. Isto é, se você vive para multiplicar dinheiro, seu coração vai tomando a forma de cifrão, e aos poucos você vai ficando parecido com Mamom que se cobre de inveja, cobiça e ansiedade - pretensão de controlar o incontrolável. Mas se a sua preocupação é com o reino de Deus e a sua justiça, pode dormir o sono dos filhos do céu, sob os cuidados do Deus que veste as flores e cuida dos passarinhos.

2009 | Ed René Kivitz

Fonte: Ibab

Um bate-papo com C.S. Lewis


Por Daniel Grubba

Resolvi trocar umas idéias com C.S. Lewis (1898 – 1963). É isso mesmo. Estou curioso para saber o que este gigante da fé cristã pensa sobre Teologia e espiritualidade.

****

Provavelmente você deve estar achando muito estranho alguém em 2009 entrevistar o “mais relutantes dos convertidos”* postumamente, não é mesmo? Você deve estar se perguntando: Será que o Daniel consultou o espírito de Lewis através da necromancia?

Na verdade queridos leitores, eu elaborei as perguntas, e as palavras registradas em dois de seus livros me responderam com exatidão (Cristianismo puro e simples, p.203-206 e na última pergunta consultei Peso de gloria, p. 61,62). Foi deste modo, bem simples.

* Devo lhes dizer que todas as respostas de Lewis foram retiradas integralmente dos livros citados, sem qualquer tipo de acréscimo ou recurso literário de minha parte.


****Bate-papo com Lewis****

Porque você resolveu falar sobre Teologia em plena 2º guerra mundial para o leitor comum?

Todos me aconselharam a não lhes dizer o que vou dizer (...) Afirmam: “O leitor comum não quer saber de Teologia; dê-lhes somente a religião simples e prática.” Rejeitei o conselho. Não acho que o leitor comum seja um tolo.

Você realmente acredita que Teologia é importante para o leitor comum? E como você define Teologia?

Teologia significa “a Ciência de Deus”, e creio que todo homem que pensa sobre Deus gostaria de ter sobre ele a noção mais clara e mais precisa possível. Vocês não são crianças: porque, então, lhes tratar como tal?

Lewis, nós estudantes, ouvimos exaustivamente que Teologia é “letra que mata”, desnecessária para o crescimento saudável da fé, e que o mais importante é a experiência real com Deus. Você também acredita que as experiências com Deus são suficientes e muito mais proveitosas?

Em certo sentido, até compreendo por que algumas pessoas se sentem desconsertadas ou até incomodadas pela Teologia. Lembro-me de certa ocasião em que dava uma palestra para os pilotos da R.A.F. e um oficial velho e rijo levantou-se e disse: “Nada disso tem serventia para mim. Mas saiba que também sou um homem religioso. Sei que existe um Deus. Sozinho no deserto, a noite, já senti a presença dele: o tremendo mistério. Para qualquer um que tenha conhecido a realidade, todos eles (doutrina, dogmas e fórmulas) parecem mesquinhos, pedantes e irreais”. Ora, num certo sentido, até concordo com esse homem.

Quer dizer que o senhor concorda com o que este oficial lhe disse? Explique-nos melhor.

Creio que ele provavelmente teve uma experiência real com Deus no deserto. Quando se voltou da experiência para a doutrina cristã, acho que realmente passou de algo real para algo menos real. Da mesma maneira, um homem que já viu o Atlântico da praia e depois olha um mapa do Atlântico também está trocando a cosia real pela menos real: troca as ondas de verdade por um pedaço de papel colorido.

Bom Lewis, se for assim então, qual é a necessidade de estudarmos Teologia? Quem em sã consciência irá trocar as ondas de verdade (experiência real), por um pedaço de papel colorido (Teologia)?

Mas é exatamente essa a questão. Admito que o mapa (Teologia) não passa de uma folha de papel colorido.

****Intervalo para o chá****

Em off para Lewis: nós o convidamos para nos ajudar a defender a importância da Teologia. O senhor não percebe que está nos constrangendo publicamente? Deveríamos ter chamado Francis Schaeffer. Você precisa se esforçar para nos explicar melhor seu ponto de vista como um teólogo que já vendeu mais de 200 milhões de livros em mais de 30 línguas diferentes.

****Retomando a entrevista****

O senhor pode nos explicar melhor o que você quer dizer quando se refere a Teologia como um mapa colorido de papel?

O mapa não passa de uma folha de papel. Mas há duas coisas que devemos lembrar a seu respeito. Em primeiro lugar, ele se baseia nas experiências de centenas ou milhares de pessoas que navegaram pelas águas do verdadeiro oceano. Dessa forma, tem por trás de si uma massa de informações tão reais quanto se pode ter da beira da praia; com a diferença que, enquanto a sua (experiência) é um único relance, o mapa abarca e colige todas as experiências de diversas pessoas. Em segundo lugar, se você quer ir para algum lugar, o mapa é absolutamente necessário.

O que é então mais importante de acordo com seu ponto de vista: experiência ou teologia?

Enquanto você se contentar com caminhadas à beira da praia, seus vislumbres serão mais divertidos que o exame do mapa; mas o mapa será de mais valia que uma caminhada pela praia se você quiser ir para um lugar distante. A teologia é como um mapa. O simples ato de aprender e pensar sobre doutrinas cristãs, é sem dúvida menos real e menos instigante que o tipo de experiência que meu amigo teve no deserto. As doutrinas não são Deus, são como um mapa. Esse mapa, porem, é baseado nas experiências de centenas de pessoas que realmente tiveram contato com Deus (...) Além disso se você quiser progredir, precisará desse mapa.

Parece-nos que o senhor está afirmando que para o verdadeiro progresso na fé, o indispensável é o mapa e não a experiência. É isso mesmo?

Note que o que aconteceu com aquele homem no deserto pode ter isso real e certamente foi emocionante, mas não deu em nada. Não levou a lugar nenhum. Não há nada que possamos fazer.

Porque então é que as pessoas superlotam os lugares que prometem experiências concretas com Deus; e nossas escolas dominicais e reuniões de estudos bíblicos, estão sempre vazias?

Na verdade, é justamente por isso que uma religiosidade vaga – sentir Deus na natureza e assim por diante – é tão atraente. Ela é toda baseada em sensações e não dá trabalho algum: é como mirar as ondas da praia.

Isto não quer dizer que as experiências não sejam importantes, não é mesmo? Acontece Lewis, que tem uns teólogos por ai que colocam Jesus na Torre de Marfim das academias filosóficas e desejam aniquilar a possibilidade do contato pessoal com o divino.

Também não chegaremos a lugar algum, se ficar examinando os mapas sem fazer-se ao mar. E, se fizer-se ao mar sem um mapa, não estará seguro.

É muito importante ressaltar isso que o senhor acabou de falar. Tanto o mergulho no mar, quanto o mapa são importantes. Assim como você, também somos a favor deste equilíbrio. No entanto Lewis parece-nos que hoje em dia, somente a experiência tem valor. Sofremos muito preconceito por dedicarmos nosso tempo ao estudo teológico. Qual é, portanto, a importância da Teologia hoje em dia?

A Teologia é uma questão pratica, especialmente hoje em dia. No passado, quando havia menos instrução formal e menos discussões, talvez fosse possível passar com algumas poucas idéias simples sobre Deus. Hoje não é mais assim. Todo mundo lê, todo mundo presta atenção a discussões. Consequentemente, se você não der atenção à Teologia, isso não significa que não terá idéia alguma sobre Deus. Significa que terá, isto sim, uma porção de idéias erradas – idéias más, confusas, obsoletas.

Poxa Lewis. É exatamente isto que tem acontecido no Brasil. A falta da Teologia está levando a igreja a adotar idéias e praticas absolutamente estranhas a Revelação bíblica. O que você tem a dizer para estes que são os responsáveis por introduzir elementos anômalos ao seio da igreja evangélica nacional?

A imensa maioria das idéias que são disseminadas como novidades hoje em dia são as que os verdadeiros teólogos testaram vários séculos atrás e rejeitaram.

O que podemos fazer? Você acha importante o ministério apologético?

Ser ignorantes e simples agora - não estar aptos para enfrentar os inimigos em seu próprio campo - seria abrir mão de nossas armas e trair nossos irmãos sem formação acadêmica, que, abaixo de Deus, não ter nenhuma defesa contra os ataques intelectuais dos pagãos, a não ser a defesa que lhes podemos oferecer. (O peso de gloria, p. 61-62)

Obrigado Lewis, o senhor tem nos ajudado bastante em nosso crescimento espiritual.

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* Título do livro de David Downing, que abordou o período ateísta da vida de Lewis. Mais informações aqui -

Nietzsche, esse louco!



Por Luiz C. Leite

"A última coisa que eu haveria de prometer seria 'melhorar' a humanidade. Eu não haverei de erigir nenhuns novos ídolos... derribar ídolos (a minha palavra para ideais), isso sim é que faz parte do meu ofício".

Ler Nietzsche é perigoso para os despreparados. Poucos ultrajaram o sistema, e em particular, a sociedade cristã de forma tão agressiva e sangrenta quanto ele. Sua filosofia demolidora pode despertar aquele que sonha, e pior, conduzí-lo a um pesadelo. Segundo Freud, Nietzsche alcançou um grau de introspecção anímica jamais alcançado por alguém e que dificilmente alguém voltará a alcançar um dia.

Esse olhar para dentro, que faz com que os homens despertem da doce ilusão com a qual seus muitos ídolos os envolvem, é ao mesmo tempo um exercício desejável e assustador. Quantos de nós estão preparados para a desilusão de um encontro frontal com sua alma desnuda? Quantos estariam preparados para encontrarem-se com o homenzinho encarquilhado e, humildemente reconhecer: "Esse sou eu!"

A natureza humana tenta esconder por todos os meios o homenzinho encarquilhado, mas de que adianta negá-lo, escondê-lo, se ele teimosamente permanece lá? Nietzsche encontrou-se com a verdade a respeito de si mesmo, o homem caído, e fez questão de publicar as misérias e mazelas da espécie. Não considerou que essa criatura falida poderia nascer de novo para uma realidade outra. Que pena que não tenha ído, na calada da noite, às escondidas, se encontrar com Jesus, como fez Nicodemos, para ouvir a respeito da possibilidade fantástica do novo nascimento!

Por mais trágico que pareça, o homem não é um caso perdido. Nietzsche infelizmente falhou em reconhecer no Cristo a salvação dos homens e tentou aniquilar a única esperança que resta à humanidade, investindo enlouquecidamente contra o mesmo... Perseguiu a Jesus e a seus seguidores como um Saulo enraivecido...Resultado? Morreu louco!

Será que, como Saulo de Tarso, teve a oportunidade de ouvir o som da voz majestosa que despedaça os cedros do Líbano a dizer-lhe: "Nietzsche, Nietzsche, por que me persegues? Dura coisa é para ti recalcitrar contra os aguilhões" Espero que sim, e mais, espero que tenha feito as pazes com o Crucificado antes do rompimento do fio de prata, antes do último suspiro...

Filho e neto de pastores protestantes, quem sabe não voltou pra casa, como um pródigo mulambento, mas salvo? Agora imagine, que surpresa seria encontrarmos esse maluco nas mansões celestiais! Pois é, só aguardando...

***

Luiz C. Leite é pastor, psicanalista, administrador de empresas, conferencista e escritor. Autor de "O poder do foco", editora Memorial; e "A inteligência do Evangelho", editora Naós; além de vários títulos por publicar.

Confira o blog do escritor: http://luizvcc.wordpress.com/

Fonte: Guia-me

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Tédio


"Nada é mais insuportável para o homem do que estar em pleno repouso, sem paixões, sem afazeres, sem divertimento, sem aplicação. Ele sente então todo o seu nada, seu abandono, sua insuficiência, sua dependência, sua impotência, seu vazio. Imediatamente nascerão do fundo da alma o tédio, o negrume, a tristeza, a mágoa, o despeito, o desespero."

*Blaise Pascal (1623-1662) em Pensamentos*

Entre pedras e almofadas

Por Daniel Grubba

Jacó dormiu e fez da pedra travesseiro. Era um movimento de fuga existencial. Ele fugia do irmão, do passado, e principalmente de si mesmo. Era um movimento desesperado que sobrepujava a historicidade do acontecimento. É como disse Kierkegaard, o desespero de ser o que não gostaria de ser. Desespero de tentar ser como o célebre irmão Esaú, roubar-lhe a primogenitura, vestir-se com suas roupas, imitar sua pele cabeluda e no fim de tudo ser obrigado a confessar no tribunal divino em Peniel: Sou Yacob (em hb. enganador). É o desespero da culpa. Desespero da pergunta retórica de Jeremias 13.23 que ecoa no interior de todos nós: Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Como podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal? Reformulando a questão seria: Como nós sendo yacobinianos por natureza nos livraremos de tão grande tendência ao pecado e culpa? Ou como Paulo suspirou: Quem me livrará deste corpo de morte?

Jesus também dormiu e não fez da pedra travesseiro. Era o sono dos justos. Podia, sem dever nada a ninguém, reclinar sua cabeça sobre uma almofada confortável, dormir e sequer notar a tempestade que assombrava seus amigos. Jesus não tinha a síndrome de Adão e Eva, portanto não se escondia de Deus e nem de ninguém. Não tinha culpas, muito menos pecados. Ele apenas ouvia do alto a voz do Abba que dizia: Meu filho amado que me dá muita alegria.

Onde você reclina sua vida? Sua culpa interior lhe faz dormir na dureza de uma pedra ou você consegue descansar confiantemente no confortável colo do Pai, porque sabe que é alguém justificado pelo Filho?

Yacob, o Usurpador, se tornou Israel. Deus o mudou, e a partir de então recebeu sua uma nova identidade. Nunca mais precisou tentar ser o que não era. De semelhante modo, nós também recebemos uma nova identidade e uma nova disposição interior. Morremos com Cristo e com ele também ressuscitamos. Somos uma nova criação, as coisas velhas se passaram, tudo se fez novo. Somos aqueles que Jesus ama graciosamente, pois não temos a justiça própria que vêm da lei ou de nossos parcos esforços, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé.

Não há condenação, somos filhos reconciliados e não precisamos mais dormir em travesseiros de pedra como aqueles que fogem. Por isso podemos assumir com confiança inabalável a atitude de fé que sugeriu o monge trapista Thomas Merton:

Abandone de vez suas pontuações e renda-se com toda sua pecaminosidade ao Deus que não leva em conta nem os pontos, nem aquele que os marca, mas vê em você somente um filho, remido por Cristo.”

terça-feira, 28 de julho de 2009

A intolerância dos tolerantes



Israel Belo fala sobre decisão que proíbe os psicólogos de tratarem homossexualidade como doença

Por Israel Belo de Azevedo

Em 1999, o Conselho Federal de Psicologia baixou uma resolução proibindo os psicólogos de tratar as homossexualidades como patologias. Na época, o pastor Israel Belo de Azevedo publicou a reflexão abaixo, a qual se mantém atual em meio às novas polêmicas sobre o tema.


Será a psicologia uma ciência? A pergunta pode parecer tosca, não fosse uma resolução baixada pelo Conselho Federal dos psicólogos. Desde o dia 23 de março de 1999, portanto, ficamos todos sabendo, pelo Diário Oficial da União, que "a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio, nem perversão". Não adianta discordar porque, como manda a praxe, ficaram revogadas todas as disposições em contrário.

Pela mesma instrução, os psicólogos estão terminantemente proibidos de colaborar "com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades" ou de achar publicamente que os homossexuais são "portadores de qualquer desordem psíquica". Assim, quem é psicólogo que trate de pensar igual ao Conselho Federal, a menos que queira acertar as contas com seus pares-representantes.

De igual modo, quem achava que o tema da homossexualidade fosse uma questão aberta e até pretendesse estudá-lo fique certo que não há mais o que debater. Uma penada o encerrou. Como é da natureza da ciência estar sempre aberta ao debate, especialmente quando o objeto é o ser humano, soa doloroso e anacrônico que a psicologia enquanto ciência tenha sido assassinada, logo ela que tem escolas, correntes e tendências tão fascinantemente múltiplas.

O que se quer discutir aqui, pois, não é a natureza, desviante ou não, do homossexualismo, mas a intolerância estampada em nome da tolerância. Por isso, o lamento seria o mesmo se a ordem fosse contrária. Decidisse o CFP que os homossexuais são portadores de desordem psíquica, estaria destilando a mesma intolerância.

Não tem um homossexual o direito de se achar psiquicamente desordenado e bater à porta de um consultório em busca de cura? Não tem o psicólogo o direito de entender que esse homossexual pode ser tratado?

A resposta, por decreto (como se ciência fosse feita por decreto), é um duplo "não". Os homossexuais, que eventualmente queiram mudar, não precisam se preocupar: o Conselho não legisla sobre eles, pelo que não poderão ser alcançados. Aos psicólogos, que eventualmente queiram ajudá-los, só resta a indigna clandestinidade. Com licença para uma paráfrase, seu cuidado não pode ousar dizer o nome.

Nada haveria a opor se o órgão de classe apenas e contundentemente condenasse, como o faz, aquelas ações coercitivas que visem "orientar homossexuais para tratamentos não solicitados". Ninguém deve ser coagido, nem mesmo pela melhor causa, porque é a liberdade que faz uma pessoa tornar-se humana.

A grandeza de Galileu Galilei foi precisamente a de resistir às bulas papais de que a terra não se movia. É àquela época que a resolução de agora nos faz retroceder. Não será, porém, um desvio desses que fará a ciência da psicologia resvalar do seu caminho.


Acesse o blog do autor: www.prazerdapalavra.com.br

Fonte: Mundo Cristão

Soberano Deus


Por Arthur Pink (1886-1952)

“O Deus deste século vinte não se assemelha mais ao Soberano Supremo das Escrituras Sagradas do que a bruxuleante e fosca chama de uma vela se assemelha à glória do sol do meio-dia. O Deus de que se fala atualmente no púlpito comum, comentado na escola dominical em geral, mencionado na maior parte da literatura religiosa da atualidade e pregado em muitas das conferências bíblicas, assim chamadas, é uma ficção engendrada pelo homem, uma invenção do sentimentalismo piegas. Os idólatras do lado de fora da cristandade fazem "deuses" de madeira e de pedra, enquanto que os milhões de idólatras que existem dentro da cristandade fabricam um Deus extraído de suas mentes carnais. Na realidade, não passam de ateus, pois não existe alternativa possível senão a de um Deus absolutamente supremo, ou nenhum deus. Um Deus cuja vontade é impedida, cujos desígnios são frustrados, cujo propósito é derrotado, nada tem que se lhe permita chamar Deidade, e, longe de ser digno objeto de culto, só merece desprezo”.

***
Saiba mais sobre Arthur Pink clicando aqui

Formar pastores ou teólogos?



Por Lourenço Stélio Rega

A discussão superada na década de 90 está voltando. Sem dúvida entendo ser uma questão importante, mas também precisamos considerar alguns detalhes.

(1) Depois de mais de 32 anos de ministério – tanto na igreja local, quanto na educação teológica (neste caso quase 34 anos) como na vida denominacional – tenho aprendido que não adianta nada conhecermos bem Teologia e exegese se não pudermos atender o povo, as ovelhas;

(2) mas tenho aprendido também que, para atender às ovelhas, precisamos de conteúdo – conhecimento teológico, bíblico, psicológico, sociológico, filosófico, etc – senão o ministro não vai conseguir ter fundamentos para fazer com qualidade o que for preciso. Será preciso também interpretar a cultura e ideologia deste mundo para poder preparar as ovelhas a sobreviver na vida cotidiana como verdadeiras testemunhas em palavra e vida transformada;

(3) em outras palavras, aprendi que esta questão é como os dois trilhos da estrada de ferro, onde um pára, a viagem pára;

(4) enfim, precisamos aprender que teoria e prática andam juntas. Precisamos formar líderes que sejam líderes na prática, mas que também pensem teológica e biblicamente;

(5) aqui seguem, para os dois lados, alguns ditados sobre o assunto:

«A teoria sem a prática é utopia, a prática sem a teoria é rotina.» «A teoria sem a prática é estéril e mero jogo intelectual, mas a prática sem a teoria é cega e ingênua.» «A teoria sem a prática é ideologia; a prática sem a teoria é empirismo cego.» «A teoria sem a prática vira “verbalismo”, assim como a prática sem teoria, vira ativismo. No entanto, quando se une a prática com a teoria tem-se a práxis, a ação criadora e modificadora da realidade.»
(Paulo Freire)

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Lourenço Stelio Rega, Mestre em Teologia, Mestre em Teologia, Mestre em Educação, Doutor em Ciências da Religião; diretor da Faculdade Teológica Batista de São Paulo

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Genuina base da humildade cristã



"Ninguém possui coisa alguma, em seus próprios recursos, que o faça superior; portanto, quem quer que se ponha num nível mais elevado não passa de imbecil e impertinente. A genuína base da humildade cristã consiste, de um lado, em não se presumido, porque sabemos que nada possuímos de bom em nós mesmos; e, de outro, se Deus implantou algum bem em nós, que o mesmo seja, por esta razão, totalmente debitado à conta da divina Graça."

João Calvino

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Crise ética



Por Daniel Grubba

O titulo do post dá a entender que vamos falar sobre a podridão do Senado ou algo do tipo, mas não é nada disso. A "crise ética" não é exclusividade do Senado, antes fosse. Ela chegou para valer nas igrejas evangélicas e tem dado muito "pano para manga".

Parece que não temos mais nada para falar, não é mesmo? Acontece que ultimamente temos recebido muitos textos, pesquisas, artigos, matérias e livros, que abordam a crescente decepção dos fiéis em relação as igrejas evangélicas institucionalizadas. E não é aconselhável varrer a sujeira para debaixo do tapete. Temos que mostrar ferida (sim, elas existem!) para depois procurar a cura.

Em particular há dois livros destinados a se tornarem best-seller. O primeiro é Porque você não quer mais ir à igreja? - além de ser um sucesso absoluto de divulgação entre os blogueiros cristãos, também não para de crescer na lista de livros mais vendidos do ranking Veja. O segundo livro, Feridos em nome de Deus, foi escrito pela jornalista Marília de Camargo César, que após ver sua antiga igreja ruir em escândalos, ferindo diversos membros, resolveu abordar delicado tema do "abuso espiritual" (Este livro está dando o que falar. Esgotado em 48 horas, também alvo de interesse da mídia secular).

Também quero destacar a atenção para uma matéria da revista Enfoque escrita por Joel Macedo, onde o jornalista aborda o crescimento do movimento dos "Evangélicos sem igreja" (para ler a matéria completa). Ele escreve:

O crescimento numérico da igreja evangélica tem impressionado a todos. Entretanto, pesquisadores revelam que o grupo que mais tem crescido nos últimos anos é o dos “crentes sem igreja” – pessoas convertidas, mas que, decepcionadas com os rumos da pregação e da instituição, optaram por uma caminhada pessoal, vivida na intimidade, ou então pela formação de pequenos grupos nos lares, reeditando ocristianismo do primeiro século .

Porque será que há tantos decepcionados? Será que o modelo de governo esclesiástico não supre mais os anseios de um mundo pós-moderno? Será que se trata de uma nova reforma?

Bom, são tantas questões e subsequentes repostas que não chegaríamos jamais ao fim do debate. No entanto, gostaria de destacar uma particularidade do movimento evangélico que tem revelado ao mundo, não exatamente o amor de Cristo como ele idealizou (Jo 13.35), mas uma face egoísta, bajuladora e manipuladora - principalmente quando os escândalos financeiros vem a tona e deixam transparecer a " crise ética" em que todos nós estamos envolvidos.

Podemos perguntar: Como algo tão nobre como a religião, a busca de Deus, pode se converter em legitimação de tantos sofrimentos e abusos? O teólogo da libertação Jung Mo Sung nos ajuda a entender:

Geralmente as pessoas que se dedicam exclusivamente à religião - os sacerdortes - não produzem diretamente o necessário à própria sobrevivência. Afinal, eles dedicam integralmente o seu tempo aos assuntos religiosos (...) Assim seu sustento provém de uma parte não consumida pelos próprios produtores. Chama-se a parte excedente. Numa sociedade dividida em classes sociais, o excedente geralmente é controlado pelos "ricos". Isso significa que a construção de grandes templos, as despesas com o culto, a manutenção dos sacerdotes e os outros gastos são cobertos em grande parte pelos "ricos" (...) Ora, essa "aliança" da classe dominante com a classe sacerdotal (...) condiciona drasticamente o discurso religioso ... A dependência econômica, ou o casamento da religião com o poder, é fonte de tentação para a manipulação de Deus e da religião . (Jung Mo Sung em Deus: Ilusão ou realidade? p. 24.)

Marília de Camargo César, autora do livro Feridos em nome de Deus, acredita que parte desta "crise ética" está enraizada na bajulação das ovelhas aos líderes autoritários e o envolvimento financeiro da relação :

Muitos ministros sinceros e usados por Deus para ajudar pessoas combalidas por problemas gravíssimos passam a considerar normal receber bens valiosos, como retribuição. Conheço pastores que foram abençoados com carro importado, jóias, viagens ao exterior, roupas degrife ... A reincidência de tais ações , contudo, pode contaminar o relacionamento entre pastores e ovelhas. E o estatuto das igrejas não contempla limites éticos para essas doações, como fazem, por exemplo, as empresas. Essa cultura de retribuir a homens dádivas obtidas de Deus pode facilmente degenerar para a mais pura bajulação e levar o pastor aadotar atitude tendenciosa no momento de julgar questões entre irmãos de diferentes condições sociais. (Marília de Camargo César, Feridos em nome de Deus, p.36).

Não é segredo para ninguém que a crise ética gira em torno da busca pelo poder-dinheiro, e ficar recebendo mimos - descriteriosamente - é um perigo sutil e eficaz. Tiago, irmão do Senhor, já tinha alertado a igreja quanto a isso em sua pequena carta no capítulo 2, verso 2 a 6, que diz:

Porque, se no vosso ajuntamento entrar algum homem com anel de ouro no dedo, com trajes preciosos, e entrar também algum pobre com sórdido traje, E atentardes para o que traz o traje precioso, e lhe disserdes: Assenta-te tu aqui num lugar de honra, e disserdes ao pobre: Tu, fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do meu estrado, Porventura não fizestes distinção entre vós mesmos, e não vos fizestes juízes de maus pensamentos?

Deus nos livre desta rendição a Mamon (riquezas), deste favorecimento aos ricos em detrenimento dos pobres, senão um dia aparecerá em alguma biboca santa por ai: O último a sair apague a luz. E há quem diga que estará assinado por Jesus. Pois e ele que diz: Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; quando não, brevemente a ti virei, e tirarei do seu lugar o teu castiçal, se não te arrependeres. (Ap 2.5)

A cada dia um vento de doutrina


Nós somos assaltados por todo tipo de doutrinas novas. A velha fé é atacada por assim-chamados “reformadores” que adorariam reformá-la completamente. Eu espero ouvir notícias de alguma doutrina nova uma vez por semana. Tão freqüentemente como a lua muda, um ou outro profeta é movido a propor alguma nova teoria, e acreditem, ele lutará mais bravamente por sua novidade do que jamais fez pelo Evangelho. O descobridor se acha um Lutero moderno, e da sua doutrina ele pensa como Davi pensou da espada de Golias: "Não há outra semelhante."

Como Martinho Lutero disse de alguns nos seus dias, estes inventores de novas doutrinas encaram suas descobertas como uma vaca diante de um portão novo, como se não houvesse nada mais no mundo para se encarar. Eles esperam que todos nós fiquemos loucos por seus modismos e marchemos de acordo com o seu apito. Ao que nós damos ouvidos? Não, nem por uma hora.

Charles H. Spurgeon

* Ver texto completo no Púlpito Cristão

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Cinco Solas



Está cada vez mais difícil distinguir a crença e as práticas evangélicas dos dogmas romanistas. Historicamente, a igreja católica romana tem feito acréscimos ao ensinamento bíblico e modernamente os protestante também tem feito acréscimos, de modo que torna-se necessário reafirmar os Solas da Reforma Protestante.

SOLA ESCRIPTURA

Os romanistas jamais negaram a Bíblia como Palavra de Deus. Porém a ela, e sobre ela, colocaram a autoridade da tradição e a infalibilidade papal, de modo que a autoridade da igreja é que determina a autoridade da Bíblia. Os protestantes, proclamaram o Sola Scriptura, reconhecendo a suficiência das Escrituras e subordinando a ela qualquer outra autoridade, rejeitando qualquer ensino dissonante. Mas os evangélicos de hoje, tem posto à Bíblia de lado e aceitado profecias modernas, visões de anjos, relatos de visitas ao céu e ao inferno, além de se sujeitarem acriticamente a autoridade de apóstolos, bispos e pastores inventivos. Torna-se urgente proclamar de novo: a Bíblia somente!

SOLA GRATIA

Os romanistas também nunca chegaram a dizer que a graça não era fundamental à salvação. Mas à ela adicionaram penitências e sacramentos e até venderam indulgências para que, por elas, o homem fosse salvo. Os reformadores por sua vez afirmaram que a salvação, toda ela, do início ao fim, é obra da graça, sendo que até mesmo o arrependimento e a fé são dons de Deus. O evangélicos modernos tem deturpado a salvação pela graça, seja fazendo a salvação depender mais do livre-arbítrio que da graça, e exigindo sacrifícios financeiros para que o homem torne-se aceitável diante de Deus. É preciso declarar: Graça somente!

SOLA FIDE

Os romanistas sempre deram destaque à fé, mas lado a lado colocaram as obras, como os meios pelos quais o homem é salvo. Lutero e outros protestantes pregaram a justificação pela fé somente, rejeitando com veemência qualquer insinuação de que as obras obtém méritos para com Deus. A igreja evangélica de hoje tem se tornado tão legalista que depôs a fé e em seu lugar adotou um sistema legalista, onde o crente chega ao céu pela obediência e não pela confiança na obra de Cristo. A fé somente, deve ser nossa bandeira.

SOLUS CHRISTUS

Católicos romanos não negam a suficiencia de Cristo, no entanto dão tanta importância à Maria como intercessora que na prática ela é considerada co-redentora. Os protestantes, mesmo respeitando a pessoa de Maria reafirmaram a verdade bíblica de que não há outro mediador entre Deus e o homem, além de Jesus Cristo. Porém, os evangélicos modernos tem feito a salvação depender da mediação de homens e denominações, praticamente endeusando apóstolos, bispos e levitas. Precisamos reafirmar Jesus Cristo somente!

SOLI DEO GLORIA

Os romanistas não negam glória a Deus. Mas a pretexto de uma distinção artificial entre latria, dulia e hiperdulia, tem repartido a glória de Deus com um panteão de santos mortos. Os reformadores foram enfáticos em dar toda glória a Deus, reconhecendo que tudo provém dEle, por meio dEle e para Ele. Os evangélicos modernos tem seguido fórmulas, métodos e rituais prescritos por líderes mais carismáticos que íntegros, dando-lhes uma glória devida a Deus. Precisamos proclamar glória a Deus somente!

A dura realidade é que apesar de todo esforço dos reformadores, os evangélicos de hoje tem retrocedido suas práticas ao catolicismo medieval. Precisamos mais que nunca reafirmar os Cinco Solas.

Fonte: Cinco Solas

terça-feira, 21 de julho de 2009

Nem neste monte, nem em Jerusalém (Jo 4.21)

Representação gráfica do "Templo de Jerusalém"


Texto: Daniel Grubba



E Salomão lhe edificou casa; Mas o Altíssimo não habita em templos feitos por mãos de homens, como diz o profeta: O céu é o meu trono, E a terra o estrado dos meus pés. Que casa me edificareis? diz o Senhor, Ou qual é o lugar do meu repouso? Porventura não fez a minha mão todas estas coisas? Atos 7.47-50

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No sermão que selou seu martírio Estevão ousou questionar a milenar "noção espacial" da morada divina (Deus limitado em alguma localidade). Neste trecho acima o primeiro mártir da fé cristã estava dizendo para os judeus religiosos que centralizavam a totalidade de suas vidas no Templo que "Deus não morava ali e que nunca estará confinado em nenhuma morada construída pelo homem". Era como se hoje falasse nos dias de hoje: "Amigos judeus, o Deus Altíssimo pode ser invocado em Israel, em suas sinagogas, e também na Palestina que vocês tanto odeiam". Ou se dissesse para alguns religiosos modernos: Queridos, a igreja-templo que vocês construiram não é a casa do Senhor, Deus não mora ali. E naquele momento, o mesmo elemento que serviu para construir o templo, foi usado para matar Estevão. Pedras.

Não queremos dizer com isso que não é importante frequentar a igreja-templo. Não é essa a questão em pauta. Alias, você pode ir para qualquer lugar desde que seu coração seja um altar e sua vida uma morada do Espírito, posto que Jesus nos ensinou que ninguém se purifica ao participar de um evento religioso, como não se torna imundo por assentar-se na mesa com um publicano pecador. Por sinal, Jesus era tão absolutamente livre desta "noção espacial-geográfica" que podia ia ao Templo em Jerusalém com a mesma disposição com que sentava-se numa mesa com pessoas de má fama. Ele procurava a imagem de Deus nas pessoas e não em lugares ou coisas. Foi por isso que foi tão odiado pelos religiosos de pedigree. Ele reduziu ao pó a noção de que lugares, pessoas ou objetos podem tornar imundo (espiritualmente) o nosso ser - Toda sujeira que pode contaminar nosso ser, não está fora de nós, mas dentro.

"O que sai da pessoa é o que a faz ficar impura. Porque é de dentro do coração que vêm os maus pensamentos, a imoralidade sexual, os roubos, os crimes de morte, os adultérios, a avareza, as maldades, as mentiras, as imoralidades, a inveja, calúnia, o orgulho e o falar e agir sem pensar nas consequências. Tudo isto vem de dentro e faz com que as pessoas fiquem impuras." (Marcos 7.21-22) - NTLH

O NOVO TEMPLO

Ainda pensando na velha noção, alguns voltaram-se para Jesus e disseram: "Olha mestre, que lugar maravilhoso construimos para Deus". Então, ele olhava tudo aquilo, a construção belíssima, e dizia: Não ficará pedra sobre pedra. (Lc. 21 : 6) Pois, em três dias eu reconstruirei um novo templo, não feito por mãos de homens. (Marcos 14 : 58). E João em seu evangelho, posteriormente, interpretou a fala de Jesus explicando para nós que Ele se referia ao "templo do seu corpo". Ou seja, o local da adoração em espírito e em verdade não é um espaço construído por mãos de homens, mas seu eterno corpo. Não é Jerusalém ou Gerizim. Nem ainda Templo Maior ou casinha de sapê. Jesus afirmou: Pois eu vos digo que está aqui quem é maior do que o templo." (Mateus 12 : 6) Por isso podemos dizer com convicção: onde dois ou mais estiveram reunidos em nome de Jesus, ali ele estará, e não importa o lugar. (Mt 18 : 20)

Posto isto, devemos dizer que Ele não é um deus limitado geograficamente e sua esfera de atuação transcende todas as nossas minúsculas concepções. Não é panteísmo (Deus em tudo e em todos). Trata-se antes da máxima de Jesus - tanto faz adorar a Deus em Jerusalém (local considerado o mais santo da terra) quanto em Gerizim (território considerado imundo pelos judeus de sua época) . Porque adora-se em espírito e em verdade (Jo 4 : 23)

Alias, o Templo de Jerusalém foi destruído em 70 d.C. E os judeus continuaram a invocar a Javé, pois pouco tempo antes da destruição alguns judeus piedosos foram para Jamnia, liderados por Yachanan Ben Zakai, estudar a Torah e os profetas, centralizando a fé em torno das Escrituras, se desvinculando aos poucos da vida templária. Em virtude deste ato inovador, a cultura judaica perpetuou-se na história. E os cristãos de semelhante modo, continuaram a invocar seu Deus, pois estavam centralizados em Cristo - Pedra Viva (I Pe 2 : 4), e nada mais. Em unidade e comunhão, adoravam o Pai, mediante o templo do corpo de Jesus. Os cristãos se tornaram, por assim dizer, em casa espiritual e sacerdócio santo (I Pe 2 : 5). Nós, imundos em virtude de nossa natureza caída, nos tornamos pela infinita misericórdia, em "morada do Espírito" (I Co 6 : 19). E aquele que podia escolher habitar em palácios indizíveis, escolheu morar em nós.

Portanto, não espere o "santo domingo" para adorar. Você é a Casa do Senhor. Faça como Jesus ensinou e deixe que a adoração pública de domingo seja extensão de uma vida íntima com o Pai. "Entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará"- (Mt. 6 : 6)

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Vocês não percebem que o que há de mais precioso no Evangelho é que ele nos liberta da idéia de que Deus reside em um local determinado? Para os seguidores de Jesus essa notícia foi excelente. Não precisariam pensar num Deus que estaria encerrado no recesso do templo e apenas disponível para pessoas especiais em ocasiões especiais. (Jacobsen & Coleman, 2008)

Darwin diante da morte



A postura de cada um na iminência da morte pode esclarecer suas motivações e escolhas durante a vida. Em geral, quanto mais maturidade se tem, mais condições de avaliar tais escolhas. As fotos mostram Darwin em sua juventude e em sua idade avançada.

Como estamos no ano de Darwin, 150 anos de sua obra A Origem das Espécies e 200 anos de seu nascimento, que se inclua na lembrança deste ícone da ciência contemporânea, suas tão importantes palavras no leito de morte. Elas podem indicar onde estão as chaves que abrem as portas do cativeiro do pensamento humano. Medite e avalie por si mesmo.

A VISITA DE LADY HOPE A CHARLES DARWIN

Os estudantes da teoria da evolução podem surpreender-se ao saber que, no final de sua vida, Charles Darwin retornou à sua fé na Bíblia. O relato a seguir foi feito por Lady Hope, de Northfield, Inglaterra, uma maravilhosa mulher cristã que esteve muitas vezes ao lado de sua cama nos seus dias finais.

Foi numa dessas gloriosas tardes de outono que às vezes temos na Inglaterra que fui chamada para entrar e sentar-me com Charles Darwin. Sempre que eu o via, com sua presença elegante, eu imaginava que dele se podia pintar um quadro formidável para nossa Academia Real, mas nunca pensei tanto nisso como nesta ocasião em particular.

Ele estava sentado na cama, apoiado em travesseiros, olhando fixamente para uma cena distante no bosque e nos campos de milho que reluziam à luz de um maravilhoso pôr-do-sol.

Seu semblante iluminou-se de prazer quando entrei no quarto. Ele acenou em direção àjanela, apontando para a bela cena do poente. Em sua outra mão ele segurava uma Bíblia aberta, a qual ele sempre estava estudando.

“O que você está lendo agora?”, perguntei.

“Hebreus”, ele respondeu. “O Livro Real, como eu o chamo”. Então, à medida que colocava seus dedos sobre certas passagens, ele comentava sobre elas.

Fiz algumas alusões às fortes opiniões expressas por muitos sobre a história da criação, e sobre os julgamentos que faziam a respeito dos primeiros capítulos de Gênesis. Ele pareceu angustiado, crispando seus dedos nervosamente, e um ar de agonia tomou conta do seu rosto ao dizer: “Eu era um jovem com idéias informes. Soltava perguntas, sugestões, indagando o tempo todo sobre tudo. Para meu espanto, as idéias se alastraram como fogo. As pessoas fizeram delas uma religião”.

Ele ficou em silêncio por um tempo e depois de dizer algumas frases sobre a santidade de Deus e a “grandeza deste Livro”, olhando com carinho para a Bíblia que estava segurando o tempo todo, ele disse:

“Tenho um quiosque no jardim que comporta cerca de trinta pessoas. É ali (ele apontou através da janela aberta). Gostaria muito que você falasse lá. Sei que você lê a Bíblia nas aldeias. Amanhã à tarde gostaria que os empregados neste lugar e alguns inquilinos e vizinhos se reunissem ali. Você lhes falaria?”.

“Sobre que devo falar?”, perguntei.

“Cristo Jesus”, ele respondeu num tom claro e enfático — e acrescentou num tom mais baixo: “e Sua salvação. Não é o melhor tema? Depois quero que você cante alguns hinos com eles. Você pode acompanhá-los com seu pequeno instrumento, não pode?”

O brilho do seu rosto, quando ele disse isto, eu nunca esquecerei, pois acrescentou: “Se você fizer a reunião às três horas, esta janela estará aberta, e você saberá que estou cantando junto com vocês”.

Haveria uma cena mais dramática? O âmago da tragédia nos é exposto aqui! Darwin, um entusiasta da Bíblia, falando sobre a “grandeza deste Livro”, e sendo lembrado de que o movimento evolucionista moderno na teologia, unido ao criticismo cético, destruiu a fé bíblica de multidões. Darwin, com um ar aflito, lamentando-se por tudo e declarando: “Eu era um jovem com idéias informes”. Que condenação avassaladora! As “idéias informes” do jovem Darwin são a base da teologia (e da ciência) moderna!

***
(Oswald 3. Smith, Litt. D., artigo extraído de Prayer Crusade, publicada por The Little Church by the Sea, mc.) Citado no livro: O que eles disseram a um passo da eternidade, John Myers, pp. 244, Worship Produções, D’Sena Editora.

Vi no Genizah

"Há abusos em nome de Deus"


Jornalista relata os danos do assédio espiritual cometido por líderes evangélicos


A igreja evangélica está doente e precisa de uma reforma. Os pastores se tornaram intermediários entre Deus e os homens e cometem abusos emocionais apoiados em textos bíblicos. Essas são algumas das afirmações polêmicas da jornalista Marília de Camargo César em seu livro de estreia, Feridos em nome de Deus (editora Mundo Cristão). Marília é evangélica e resolveu escrever depois de testemunhar algumas experiências religiosas com amigos de sua antiga congregação.

ENTREVISTA - MARÍLIA DE CAMARGO CÉSAR

QUEM É
Marília de Camargo César, 44 anos, jornalista, casada, duas filhas

O QUE FEZ
Editora assistente do jornal O Valor, formada pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero

O QUE PUBLICOU
Seu livro de estreia é Feridos em nome de Deus (editora Mundo Cristão)
***
ÉPOCA – Por que você resolveu abordar esse tema?
Marília de Camargo César –
Eu parti de uma experiência pessoal, de uma igreja que frequentei durante dez anos. Eu não fui ferida por nenhum pastor, e esse livro não é nenhuma tentativa de um ato heroico, de denúncia. É um alerta, porque eu vi o estado em que ficaram meus amigos que conviviam com certa liderança. Isso me incomodou muito e eu queria entender o que tinha dado errado. Não quero que haja generalizações, porque há bons pastores e boas igrejas. Mas as pessoas que se envolvem em experiências de abusos religiosos ficam marcadas profundamente.

ÉPOCA – Qual foi a história que mais a impressionou?
Marília –
Uma das histórias que mais me tocaram foi a de uma jovem que tem uma doença degenerativa grave. Em uma igreja, ela ouviu que estava curada e que, caso se sentisse doente, era porque não tinha fé suficiente em Deus. Essa moça largou os remédios que eram importantíssimos no tratamento para retardar os efeitos da miastenia grave (doença autoimune que acarreta fraqueza muscular). O médico dela ficou muito bravo, mas ela peitou o médico e chegou a perder os movimentos das pernas. Ela só melhorou depois de fazer terapia. Entendeu que não precisava se livrar da doença para ser uma boa pessoa.

ÉPOCA – Que tipo de experiência você considera como abuso religioso e que marcas são essas?
Marília –
Meu livro é sobre abusos emocionais que acontecem na esteira do crescimento acelerado da população de evangélicos no Brasil. É a intromissão radical do pastor na vida das pessoas. Um exemplo: uma missionária que apanha do marido sistematicamente e vai parar no hospital. Quando ela procura um pastor para se aconselhar, ele fala assim para ela: “Minha filha, você deve estar fazendo alguma coisa errada, é por isso que o teu marido está se sentindo diminuído e por isso ele está te batendo. Você tem de se submeter a ele, porque biblicamente a mulher tem de se submeter ao cabeça da casa. Então, essa mulher, que está com a autoestima lá embaixo, que apanha do marido - inclusive pelo Código Civil Brasileiro ele teria de ser punido - pede um conselho pastoral e o pastor acaba pisando mais nela ainda. E ele usa a Bíblia para isso. Esse é um tipo de abuso que não está apenas na igreja pentecostal ou neopentecostal, como dizem. É um caso da Igreja Batista, em que, teoricamente, os protestantes históricos têm uma reputação melhor.

ÉPOCA – Seu livro questiona a autoridade pastoral. Por quê?
Marília –
As igrejas que estão surgindo, as neopentecostais, e não as históricas, como a presbiteriana, a batista, a metodista, que pregam a teologia da prosperidade, estão retomando a figura do “ungido de Deus”. É a figura do profeta, do sacerdote, que existia no Antigo Testamento. No Novo Testamento, não existe mais isto. Jesus Cristo é o único mediador. Então o pastor dessas igrejas mais novas está se tornando o mediador. Para todos os detalhes da sua vida, você precisa dele. Se você recebeu uma oferta de emprego, o pastor pode dizer se deve ou não aceitá-la. Se estiver paquerando alguém, vai dizer se deve ou não namorar aquela pessoa. O pastor, em vez de ensinar a desenvolver a espiritualidade, determina se aquele homem ou aquela mulher é a pessoa da sua vida. E o pastor está gostando de mandar na vida dos outros, uma atitude que abre um terreno amplo para o abuso.

ÉPOCA – Você também fala que não é só culpa do pastor.
Marília –
Assim como existe a onipotência pastoral, existe a infantilidade emocional do rebanho, que é o que o Sérgio Franco, um dos pastores psicanalistas entrevistados no livro, fala. A grande crítica do Freud em relação à religião era essa. Ele dizia que a religião infantiliza as pessoas, porque você está sempre transferindo as suas decisões de adulto - que são difíceis - e a figura do sagrado, no caso aqui o líder religioso, para a figura do pai ou da mãe - o pastor, a pastora. É a tendência do ser humano em transferir responsabilidade. O pastor virou um oráculo. É mais fácil ter alguém, um bode expiatório, para pôr a culpa nas decisões erradas tomadas.

“O pastor está gostando de mandar na vida dos outros
e receber presentes. Isso abre espaço para os abusos”

ÉPOCA – Quais são os grandes males espirituais que você testemunhou?
Marília –
Eu vi casamentos se desfazer, porque se mantinham em bases ilusórias. Vi também pessoas dizendo que fazer terapia é coisa do Diabo. Há pastores contra a terapia que afirmam que ela fortalece a alma e a alma tem de ser fraca; o espírito é que tem que ser forte. E dizem isso supostamente apoiados em textos bíblicos. Dizem que as emoções têm de ser abafadas e apenas o espírito ser fortalecido. E o que acontece com uma teologia dessas? Psicoses potenciais na vida das pessoas que ficam abafando as emoções. As pessoas que aprenderam essa teologia e não tiveram senso crítico para combatê-la ficaram muito mal. Conheci um rapaz com muitos problemas de depressão e de autoestima que encontrou na igreja um ambiente acolhedor. Ele dizia ter ressuscitado emocionalmente. Só que com o passar dos anos, o pastor se apoderou dele. Mas ele começou a perceber que esse pastor é gente, que gosta de ganhar presentes e que usa a Bíblia para se justificar. Uma das histórias que mais me tocou foi a de uma jovem que tem uma doença degenerativa grave. Ela foi para uma dessas igrejas e ouviu que se estivesse sentindo ainda doente era porque não tinha fé suficiente em Deus. Essa moça largou os remédios que eram importantíssimos no tratamento para retardar os efeitos da miastenia grave (doença auto-imune que acarreta fraqueza muscular). O médico dela ficou muito bravo e não a autorizou. Mesmo assim, ela peitou o médico e chegou a perder os movimentos das pernas. Ela só melhorou depois de fazer terapia. Ela entendeu que não precisava se livrar da doença para ser uma boa pessoa.

ÉPOCA – Por que demora tanto tempo para a pessoa perceber que está sendo vítima?
Marília –
Os abusos não acontecem da noite para o dia. A pessoa que está sendo discipulada, que aprende com o pastor o que a Bíblia diz, desenvolve esse relacionamento aos poucos. No primeiro momento, ela idealiza a figura do líder, como alguém maduro, bem preparado. É aquilo que fazemos quando estamos apaixonados: não vemos os defeitos. O fiel vê esse líder como um intermediário, como um representante de Deus que tem recados para a vida dele, um guru. E o pastor vai ganhando a confiança dele num crescendo, como numa amizade. Esse líder, que acredita que Deus o usa para mandar recados para sua congregação, passa a ser uma referência na vida do fiel. O fiel, pro sua vez, sente uma grande gratidão por aquele que o ajudou a mudar sua vida para melhor. Ele se sente devedor do pastor e começa, então, a dar presentes. O fiel quer abençoar o líder porque largou as drogas, ou parou de beber, ou parou de bater na mulher, ou porque arrumou um emprego e está andando na linha. E começa a dar presentes de acordo com suas posses. Se for um grande empresário, ele dá um carro importado para o pastor. Isso eu vi acontecer várias vezes. O pastor, por sua vez, gosta de receber esses presentes. É quando a relação se contamina, se torna promíscua. E o pastor usa a Bíblia para dizer que esse ato é bíblico. O poder está no uso da Bíblia para legitimar essas práticas.

ÉPOCA – Qual é o limite da autoridade pastoral?
Marília –
O pastor tem o direito de mostrar na Bíblia o que ela diz sobre certo tema. Como um bom amigo, ele tem o direito de dar um conselho. Mas ele tem de deixar claro que aquilo é apenas um conselho. Pode até falar que o resultado disso ou daquilo pode ser ruim para a vida do fiel. Mas ele não pode mandar a pessoa fazer algo em nome de Deus. O que mais fere as pessoas é ouvir uma ordem em nome de Deus. Se é Deus, então prova! Se Deus fala para o pastor, por que Ele não fala para o fiel? Eles estão sendo extremamente autoritários.

ÉPOCA – Você afirma que muitos dos pastores não agem por má-fé, mas por uma visão messiânica. Explique.
Marília –
É uma visão messiânica para com seu rebanho. Lutero (teólogo alemão responsável pela reforma protestante no século XVI) deve estar dando voltas na tumba. Porque o pastor evangélico virou um papa que é a figura mais criticada no catolicismo, o inerrante. E não existe essa figura, porque somos todos errantes, seres faltantes, como já dizia Freud. Pastor é gente. E é esse pastor messiânico que está crescendo no evangelismo. Existe uma ruptura entre o Antigo e o Novo Testamento, que é a cruz. A reforma de Lutero veio para acabar com a figura intermediária e a partir dela veio a doutrina do sacerdócio universal. Todos têm acesso a Deus. Uma das fontes do livro disse que precisamos de uma nova reforma e eu concordo com ela. Essa hierarquização da experiência religiosa, que o protestante tanto combateu no catolicismo, está se propagando. Você não pode mais ter a conversa direta com o divino. Porque tem aquela coisa da “oração forte” do pastor. Você acha que ele ora mais que você, que ele tem alguma vantagem espiritual e, se você gruda nele, pega uma lasquinha. Isso não existe. Somos todos iguais perante Deus.

ÉPOCA – Se a igreja for questionada em seus dogmas, ela não deixará de ser igreja?
Marília –
Eu não acho isso. A igreja tem mesmo de ser questionada, inclusive há pensadores cristãos contemporâneos que questionam o modelo de igreja que estamos vivendo e as teologias distorcidas, como a teologia da prosperidade, que são predominantemente neopentecostais e ensinam essa grande barganha. Se você não der o dízimo, Deus vai mandar o gafanhoto. Simbolicamente falando, Ele vai te amaldiçoar. Hoje o fiel se relaciona com o Divino para as coisas darem certo. Ele não se relaciona pelo amor. Essa é uma das grandes distorções.

ÉPOCA – Por que você diz que existe uma questão cultural no abuso religioso?
Marília –
Porque o brasileiro procura seus xamãs, e isso acontece em todas as religiões. O brasileiro é extremamente religioso. A ÉPOCA até publicou uma matéria sobre isso, dizendo que a maioria acredita em algo e se relaciona com isso, tentando desenvolver seu lado espiritual. O brasileiro gosta de ter seu oráculo. A pessoa que vem do catolicismo, onde há centenas de santos, e passa a ser evangélica transfere aquela prática e cultura do intermediário para o protestantismo, e muitas igrejas dão espaço para isso. O pastor Edir Macedo (da igreja Universal) trouxe vários elementos da umbanda, do candomblé, porque ele é convertido. Ele diz que o povo precisa desses elementos -que ele chama de pontos de contato - para ajudar a materializar a experiência religiosa. A Bíblia condena tudo isso.

ÉPOCA – No livro você dá alguns alertas para não cair no abuso religioso. Fale deles.
Marília –
Desconfie de quem leva a glória para si. Um conselho é prestar atenção nas visões megalomaníacas. Uma das características de quem abusa é querer que a igreja se encaixe em suas visões, como quere ganhar o Brasil para Cristo e colocar metas para isso. E aquele que não se encaixar é um rebelde, um feiticeiro. Tome cuidado com esse homem. Outra estratégia é perguntar a si mesmo se tem medo do pastor ou se pode discordar dele. A pessoa que tem potencial para abusar não aceita que discorde dela, porque é autoritária. Outra situação é observar se o pastor gosta de dinheiro e ver os sinais de enriquecimento ilícito. São esses geralmente os que adoram ser abençoados e ganhar presentes. Cuidado com esse cara.


Jornalista responsável pela entrevista: Katia Melo
Fonte: Revista Época

***

Recomendo a leitura do livro. Li em uma tacada só. É bom dizer que a autora em questão não tem a intenção de difamar a igreja e líderes, mas dar voz a milhares que sofrem em silêncio, que sempre acham que são os culpados por terem sido feridos. A autora respondeu no blog do livro sobre algumas críticas que está recebendo:


Muitos dos que estão criticando o livro demonstram uma profunda e sincera preocupação com a reputação da Igreja de Cristo, argumentando que os "de fora" vão saber dos podres dos "de dentro" e, desta forma, nunca vão querer entrar para o time dos "de dentro". Eu acolho com gratidão as críticas porque é uma oportunidade preciosa de discussão sobre o assunto. Pergunto, porém, para provocar mais debate: será que Paulo preocupou-se com a reputação da Igreja ao relatar que um membro da igreja de Coríntios estava dormindo com a madrasta? Indo um pouco além, será que o próprio Deus se preocupou com a reputação de Maria ao permitir que fosse mal falada pelas muitas pessoas próximas que provavelmente não acreditaram na história da sua divina concepção? Eu creio no meu coração que Deus se importa com as nossas intenções e não tanto com reputações. Quem mais se atém á reputação somos nós mesmos, dependentes que somos de aprovação em tempo integral. E, infelizmente, há muitos que - com boas ou más intenções (Deus julgará - ler I Cor 3: 11-13) - estão corrompendo o Evangelho da Graça.

Um abraço a todos.

Marília

Porque eu odeio religião - Mark Driscoll



IMPACTANTE MENSAGEM SOBRE O EVANGELHO DA GRAÇA DE DEUS. QUEM TEM OUVIDOS PARA OUVIR, OUÇA.

Se você deseja saber mais sobre Mark Driscoll, leia este excelente texto do Alex Fajardo

É o apocalipse dos livros?

Estátua do apóstolo João segurando um livro na Strahov Theological Hall em Praga - República Checa


Os alardes sobre o fim do livro têm suscitado vários debates. A maioria deles, no entanto, baseia-se em discursos equivocados, pois ignoram a evolução dos suportes de informação. Desde a pré-história, os homens registram o seu conhecimento, o homem primitivo esculpia símbolos em rochas, o homem antigo, por sua vez, começou utilizando tabletes de argila e evoluiu para o pergaminho (pele de animas) e papiro (o precursor do papel atual).

A invenção da imprensa por Gutenberg, no fim do século 15, e a possibilidade de imprimir documentos em larga escala, foi o prenúncio do que na contemporaneidade chamamos de “explosão bibliográfica”. Após a II Guerra Mundial, uma nova ferramenta que modificaria para sempre as rotinas de gestão documental surgiu: o computador. Com o advento das tecnologias de informação e comunicação, questionamentos sobre os suportes de informação surgiram: quais os suportes mais adequados para o armazenamento de informações? As bibliotecas e os livros vão acabar? Os livros vão virar objetos de museus?

O surpreendente dos debates com intelectuais que estão falando sobre o tema é a falta de objetividade dos discursos.

Os que afirmam a permanência do livro dizem:

– Não podemos viver sem o cheiro do livro!

– É bom dormir abraçado com o seu livro favorito!

– É muito mais prático carregar um livro do que um computador! (ignorando os livros eletrônicos, os quais já cabem no bolso).

Os que acreditam no fim do livro profetizam:

– A humanidade optará pelo livro eletrônico em função da consciência ecológica!

– As pessoas acessarão tudo pela internet e não precisarão mais de bibliotecas!

O que falta a alguns “profetas” é conhecimento biblioteconômico.

Primeiro: O livro é só um suporte de informação, como o foram os tabletes de argila. O que vale é a informação que ele contém. Sendo assim, enquanto objeto, ele pode sim virar artigo de museu.
Segundo: Os atuais suportes digitais de informação ainda não podem substituir o livro em papel por uma série de fatores como obsolescência, confiabilidade, autenticidade e longevidade desses suportes.

Terceiro: as bibliotecas nunca vão acabar, pois não prestam “serviços de livros” e sim “serviços de informação”, estejam essas informações em qualquer tipo de suporte. Por fim, para aqueles que amam o suporte livro, seu cheiro, manuseio, seu custo-benefício, fiquem tranquilos: estudos indicam que eles perdurarão. Certamente, nossa terceira geração ainda circulará abraçada neles. Mas não se iludam: a história prova que todos os suportes tiveram seu tempo, uns suplantando os outros. Por que com o livro seria diferente?

Magali Lippert da Silva é bibliotecária

Fonte: Zero Hora via Livros só mudam pessoas

***
Comentário: Esses dias meu pai me ofereceu um e-book de aniversário dizendo que em breve os livros desaparecerão. Eu disse: Pai, eu gosto do cheiro do livros, sei o cheiro de cada um que tenho. Ele não entendeu. Continuei dizendo: Pai, eu gosto de "pintar e bordar" meus livros, no tal do e-book como farei isso? E mais meu velho: é muito caro esse trem ai ! Amanha mesmo vou no sebo e comprarei meus livrinhos a preço de banana.

Gosto de uma frase do Gondim que diz "as paredes do céu estarão recobertas de estantes entupidas de livros". E também uma outra do teólogo indiano Ravi Zacharias que fez uma adaptação de Mq 4.4 dizendo "cada um assentar-se-á debaixo de sua biblioteca (o texto bíblico diz videira).

Como disse o poeta Mario Quintana "os livros não mudam o mundo. Quem muda o mundo são pessoas. Os livros só mudam pessoas."

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Adoradores ou consumidores?

Texto: Augustus Nicodemus Lopes

A palavra “evangélicos” tem se tornado tão inclusiva que corre o
perigo de se tornar totalmente vazia de significado — (R. C. Sproul)



Em certa ocasião o Senhor Jesus teve de fazer uma escolha entre ter 5 mil pessoas que o seguiam por causa dos benefícios que poderiam obter dele, ou ter doze seguidores leais, que o seguiam pelo motivo certo (e mesmo assim, um deles o traiu). Em outras palavras, uma decisão entre muitos consumidores e poucos fiéis discípulos. Refiro-me ao evento da multiplicação dos pães narrado em João 6. Lemos que a multidão, extasiada com o milagre, quis proclamar Jesus como rei, mas ele recusou-se (João 6.15). No dia seguinte, Jesus também se recusa a fazer mais milagres diante da multidão pois percebe que o estão seguindo por causa dos pães que comeram (6.26,30). Sua palavra acerca do pão da vida afugenta quase que todos da multidão (6.60,66), à exceção dos doze discípulos, que afirmam segui-lo por saber que ele é o Salvador, o que tem as palavras devida eterna (6.67-69).


O Senhor Jesus poderia ter satisfeito às necessidades da multidão e saciado o desejo dela de ter mais milagres, sinais e pão. Teria sido feito rei, e teria o povo ao seu lado. Mas o Senhor preferiu ter um punhado de pessoas que o seguiam pelos motivos certos, a ter uma vasta multidão que o fazia pelos motivos errados. Preferiu discípulos a consumidores.


Infelizmente, parece prevalecer em nossos dias uma mentalidade entre os evangélicos bem semelhante à da multidão nos dias de Jesus. Parece-nos que muitos, à semelhança da sociedade em que vivemos, tem uma mentalidade de consumidores quando se trata das coisas do Reino de Deus. O consumismo característico da nossa época parece ter achado a porta da igreja evangélica, tem entrado com toda a força, e para ficar.


Por consumismo quero dizer o impulso de satisfazer as necessidades, reais ou não, pelo uso de bens ou serviços prestados por outrem. No consumismo, as necessidades pessoais são o centro; e a “escolha” das pessoas, o mais respeitado de seus direitos. Tudo gira em torno da pessoa, e tudo existe para satisfazer as suas necessidades. As coisas ganham importância, validade e relevância à medida em que são capazes de atender estas necessidades.


Esta mentalidade tem permeado, em grande medida, as programações das igrejas, a forma e o conteúdo das pregações, a escolha das músicas, o tipo de liturgia, e as estratégias para crescimento de comunidades locais. Tudo é feito com o objetivo de satisfazer as necessidades emocionais, psicológicas, físicas e materiais das pessoas. E neste afã, prevalece o fim sobre os meios. Métodos são justificados à medida em que se prestam para atrair mais freqüentadores, e torná-los mais felizes, mais alegres, mais satisfeitos, e dispostos a continuar a freqüentar as igrejas.


Fonte: Olhar Reformado

Jesus: Deus, um louco ou um diabo



“Eu tento impedir o uso daquela frase tola que as pessoas costumam dizer a respeito dEle: ‘Estou pronto a aceitar Jesus como um grande e digno mestre, mas não aceito sua pretensão de ser Deus’. Não devemos dizer isso. Alguém que fosse simplesmente um homem e dissesse o tipo de coisa que Jesus disse não seria um grande e digno mestre. Seria um lunático — igual ao homem louco que afirma ser ‘Napoleão’ — ou o diabo. É preciso fazer uma escolha. Ou esse Homem era, e continua sendo, o Filho de Deus, ou era um louco ou algo pior. Você pode fazê-Lo calar, supondo ser Ele um tolo; pode cuspir nEle e matá-Lo, porque O vê como um demônio; ou você pode cair aos pés dEle e chamá-Lo de Senhor e Deus. Entretanto, não digamos tolices complacentes como, por exemplo, que Ele era somente humano e um grande mestre. Ele não nos deu liberdade para tal coisa. Ele não pretendia fazê-lo”.

C. S. Lewis

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Fonte: Cinco Solas

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Ritos



Uma pessoa pode ir a igreja duas vezes por dia, participar da ceia do Senhor, orar em particular o maximo que puder, assistir a todos os cultos e ouvir muitos sermões, ler todos os livros que existem sobre Cristo. Mas ainda assim tem que nascer de novo.

John Wesley (1703 – 1791)

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Vi no Solomon 1

terça-feira, 14 de julho de 2009

A paz que não promove alienação



Texto: Daniel Grubba

No Sermão da Montanha (Mateus - cap. 5 a 7), Jesus diz que felizes são os pacificadores e que por tal razão os tais seriam chamados "filhos de Deus". Paulo também em Romanos 12.18 nos aconselha, no que depender de nós, procurarmos ter paz com todos os homens. Posto que Deus não é Deus de confusão, senão de paz (I Co 14.33).

No entanto, o esforço pelo estabelecimento da paz não deve nos alienar. A verdadeira paz nunca legitimará a omissão frente as distorções da mensagem de Jesus. Aquele que disse "felizes são os pacificadores", é o mesmo que diz "felizes são os que tem fome e sede de justiça". E o mesmo que disse "não julgueis" é o mesmo que diz para exercermos o discernimento pois "pelos frutos conhecereis". São muitas orientações neste sentido: “Acautelai-vos!Vede que não os sigais!” Muitos virão em meu nome...”

Caio Fábio comentando o Sermão da Montanha e a aparente discrepância entre o "nao julgar" e o dever de "discernir frutos" disse:

"Desse modo, o mesmo texto que ordena que não se julgue a individualidade de quem quer que seja, termina mandando que se discirna o fruto de cada um que chega falando em nome de Jesus, visto que o próprio Senhor advertiu que eles viriam, e que precisariam ser discernidos, a fim de que se não os seguisse, no caso de falsificarem o Evangelho
".

Penso que não é saudável neste tempo presente fazer do "argumento da busca pela paz" um ópio que embriaga nossa capacidade de discernir. Quem se cala diante da idolatria reinante no arraial evangélico e se recusa a denunciar as falsas doutrinas não ama a paz, antes é um ser absolutamente conformado com o status quo, e demonstra mediante a passividade ser alguém cuja mente não foi transformada pela renovação do entendimento segunda a verdade da Palavra (Rm.12.2). Como disse Lutero: “Paz se possível, mas verdade a qualquer custo.”

A falta de discernimento é uma porta aberta para entrada de toda sorte de aberrações. Para Charles Colson "o inimigo entre nós e se infiltrou de tal modo em nossa linhas que muitos simplesmente já não conseguem distinguir entre o amigo e o inimigo, entre a verdade e a heresia".

Seguindo a mesma linha de raciocínio, o Pr. Ubirajara foi feliz quando disse:

"Batalha espiritual não se resume a confrontações públicas ou privadas com demônios, inclui resistir à heresia, desmascarando-a e ensinando a sã doutrina, exigindo um profundo conhecimento da Palavra, o que demanda tempo e dedicação ... Estamos demorando a admitir que muitas destas lutas já foram perdidas, pois enquanto concentramos nossa munição nos demônios falantes, o que inúmeras vezes não passa de uma distração, a sua tropa de elite penetra por portões que não estão sendo vigiados, ele faz isto introduzindo aqui e ali algumas heresias destruidoras. Destacamos aqui deturpações em áreas como a prosperidade, a maldição hereditária, a autoridade, a santificação, os títulos, a unção, o avivamento, os dons e o governo eclesiástico".
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Quem conhece a mensagem de Jesus e o ensino do Evangelho em Paulo, por exemplo, não tem como ver todas essas coisas (distorções) e não desnudá-las como falso ensino e como perversão do Evangelho - Caio Fábio
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* ver também o texto: Paz sem voz não é paz, é medo

O labor de Wesley



Texto: Daniel Grubba

Não há modo mais forte e suave de ensinar do que o exemplo.”

Essa frase do orador português Manuel Bernardes (1644-1710) ilustra com perfeição a proposta de estudarmos a história de vidas marcadas pelo intenso amor a Cristo e paixão pelas almas.

Para uma igreja cada vez mais se fechada em si mesma e limitada dentro de seus templos, não há nada mais constrangedor do que estudar a vida e obra de John Wesley. Ao analisarmos suas pegadas na terra vemos quão longe estamos do coração missionário de Deus.

Os feitos de John Wesley são notáveis e certamente este não será encontrado entre aqueles que enterraram os talentos. Enquanto um pastor prega em média 100 vezes ao ano, ele pregava 780 vezes. Durante cinqüenta e quatro anos percorreu toda Inglaterra proclamando a graça de Jesus, desbravando povos e sociedades nunca evangelizadas, principalmente os mineiros, a classe operária mais baixa da Inglaterra - famosos por levar uma vida devassa.

A diligencia para o trabalho cristão era uma marca profunda em sua vida, estima-se que viajou mais de 600.000 km e pregou 40.000 sermões. Acrescenta-se a isso uma infinidade de cartas pastorais que trocava com seus filhos espirituais, envio de pregadores e missionários, construção de capelas, visitas aos enfermos e aprisionados, publicação de duzentas obras, liderança de uma sociedade em expansão (estima-se 70.000 membros ate o fim de sua vida), e isso somente na Inglaterra, sem contar os membros da Irlanda, Escócia e América.

Costumava viajar grande distâncias a cavalo de acordo com seu organizado calendário missionário, porém nunca abandonou o prazer pela vida literária, enquanto cavalgava leu não menos que 1.200 tomos-livros.

Assim como o apóstolo Paulo, Wesley enfrentou todos os tipos de adversidades em suas viagens; suportou com perseverança dias quentes e temporais de neve, perigos de assalto, acidentes de percurso, mas nada podia para este homem que tinha como propósito, salvar almas para Jesus. A fonte do vigor estava na vida de oração e amor pela bíblia.

Tanta paixão gerou grandes perseguições. Enfrentaram multidões enraivecidas, amotinadores rebeldes que odiavam a proclamação da santidade. Estes grupos por inúmeras vezes tentaram acabar com as pregações ao ar livre. Muitas vezes foram apedrejados, saqueados, presos e ate martirizado. Mas a perseguição da Igreja Oficial foi sua verdadeira cruz. Foram denunciados de falsos profetas e agitadores de multidão. E quando não era a igreja, eram os magistrados, prefeitos e juízes que destilavam seus venenos contra este movimento revolucionário e subversivo.

Mas nada pode impedir o agir de Deus. Wesley se recusou a parar de trabalhar em pról do evangelho mesmo em face da morte, sua velhice é tão ou mais prodigiosa que sua juventude e até o fim da vida deste homem notável o evangelho não parou de crescer e se espalhar pelo mundo.

João Wesley foi ao encontro de seu Senhor aos 89 anos de idade, porém sua peregrinação na terra deixou marcas profundas e sete milhões de seguidores de Jesus Cristo nas igrejas metodistas (números aproximados em 2007).


Bibliografia:

Lelievre, Mateo. João Wesley – Sua vida e obra. São Paulo: Editora Vida, 1997.
Duewel, Wesley. Heróis da vida cristã. São Paulo: Editora Vida, 2004.
Boyer, Orlando. Heróis da fé. São Paulo: CPAD, 2002