Mostrando postagens com marcador Teologia da libertação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Teologia da libertação. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Desperta, tu que dormes



Texto: Daniel Grubba


A verdadeira mensagem cristã não é alienadora, ao contrário disso, é libertadora; Ela nos liberta de uma vida auto-centrada e egoísta; e uma vez iluminados pela verdade, nada mais fica no mesmo lugar, pois no seio desta anunciação está a boa notícia para o oprimido.

A verdade é que o espírito desta mensagem está em profundo antagônismo a alienação em todas suas matizes e esferas. E isto significa que o verdadeiro evangelho carrega uma mensagem de despertamento de consciências letárgicas, que por sua vez podem ter se tornado letárgicas em virtude de filosofias secularizadas ou sistemas religiosos. E penso que o segundo caso é mais perigoso que o primeiro. Sim, pois prerrogam para si um "carimbo do céu" que supostamente legaliza seu estado de dessensibilização.

Por isso não causa espanto nenhum ver nos evangelhos Jesus chamando a atenção daqueles ultra-religiosos que diziam: "Nós vemos". Ora, se de fato vissem alguma coisa, não seriam repreendidos por Jesus por causa de sua cegueira, e veriam com clareza seu estado de alienação. Portanto à estes Jesus disse: "Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece." (João 9 : 41).

Alienação-cegueira a que exatamente?

Alienação em relação a agenda de Deus. E a agenda de Deus é o próximo. E quem é meu próximo? Foi o que perguntou um certo doutor da lei para Jesus, na inútil tentativa de justificar a si mesmo. Jesus disse que o próximo é um homem que descia de Jerusalém para Jericó, foi roubado, ferido e agora está abandonado a própria sorte. E pior do que isso, dependendo da compaixão de sacerdotes e levitas completamente alienados a dor que ele sente, pois são gente que julgam enxergam alguma coisa mas na verdade são cegos. Que tipo de cegos eles eram? Do tipo daqueles que se preocupam com suas atividades religiosas acima de tudo e de todos, e o caído para estes é mais um pecador que merece seu fardo, afinal só um pecador pode estar assim; tão caído.

Ora, quem são os caídos pelo caminho em nosso atual contexto? Se disponha a olhar ao seu redor nos ambientes que você frequenta e você os verá. Ande algumas quadras em seu bairro e ali eles estarão.Você encontrá o nu que não foi vestido, o faminto que não foi alimentado, o prisioneiro que não foi visitado e além deles; o Senhor (Mateus 25.35-46).


Menno Simons, teólogo da reforma, disse: "A fé evangélica verdadeira [...] não pode permanecer adormecida, mas manifesta-se em toda bondade e ações de amor. Ela veste o nu, alimenta os famintos, consola os aflitos, abriga os miseráveis, ajuda e consola todos os oprimidos, retribui o bem pelo mal, serve àqueles que a ferem e ora por aqueles que a perseguem"

Segundo o IPEA, 10% da população mais rica do Brasil detêm 75,4% de todas as riquezas do país. O que o Evangelho que pregamos pensa a respeito disso?

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Poder e sucesso, justiça e santidade



Por Jung Mo Sung

A nossa esperança e o nosso testemunho não podem ser fundados na fé em Deus-poder ou na divinização de alguma pessoa, grupo social ou instituição. A fé cristã nos apresenta um caminho inverso: ao invés da divinização de um ser humano muito poderoso ou de alguma instituição social (como o mercado) ou religiosa – proposta sedutora de muitas religiões e ideologias sociais –, o Evangelho de Jesus nos propõe um Deus que se esvazia do seu poder divino para entrar na história como escravo, e como escravo se assemelhar ao humano (Filipenses 2.6,7).

Deus se revela no esvaziamento do poder para mostrar que o poder e o sucesso não são sinônimos da justiça e da santidade. Pessoas ou igrejas que se consideram justas e santas porque são ricas e/ou poderosas ou porque têm muito ibope não conhecem a verdade sobre Deus e sobre o ser humano. Não é a riqueza que lhes dá dignidade e justifica a sua existência; a nossa existência está justificada e nós somos dignos antes da riqueza, poder ou sucesso, pois nós somos justificados pela graça de Deus que se esvaziou do poder porque ama gratuitamente a toda a humanidade e a toda a criação.

Essa fé e esperança podem ser experienciadas quando perseveramos na nossa opção pelos pobres e por uma Igreja mais servidora do Povo de Deus, mesmo quando a contabilidade de nossa luta e a frustração pessoal nos diz que não há mais por que esperar. No momento em perseveramos somente porque amamos é que podemos testemunhar esta esperança que é a esperança cristã, que nasce da morte na cruz de um Deus encarnado.

______________
Jung Mo Sung é professor no Programa de Pós Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo e concentra suas pesquisas na relação entre teologia/religião – economia – educação.

Fonte: Outra Espiritualidade

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Somos águias!



"Irmãos e irmãs, meus compatriotas! Nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus!Mas houve pessoas que nos fizeram pensar como galinhas. E muitos de nós ainda acham que somos efetivamente galinhas. Mas nós somos águias. Por isso companheiros e companheiras, abramos as asas e voemos. Voemos como as águias. Jamais nos contentemos com os grãos que nos jogarem aos pés para ciscar".

Leonardo Boff no livro “A águia e a galinha” citando o discurso de libertação de James Agreey, em meados de 1925 em Gana (ex-colônia inglesa), p.34.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Mãe, no céu tem pão?


Voz trêmula de febre e fome; corpinho raquítico nos braços da mãe, que tem seu coração cortado de dor e desespero.

Uma pergunta feita no sertão perdido de um Brasil marcado por contrastes. Rostos de menores de rua famintos refletidos nos vidros de luxuosos carros importados de norte ao sul do Brasil. Alimentos desperdiçados e jogados ao lixo frente aos olhos famintos que desesperadamente procuram qualquer coisa para comer. Insensibilidade que beira o cinismo, no país que a quase totalidade se proclama cristã.

No céu tem pão? Pergunta pouco ouvida nas nossas igrejas. E, por isso, pouco respondida. Por que será? Será que a fome dessa gente não tem nada a ver com a fé cristã? Será que nem Deus se importa com isso? Será que outras preocupações mais "importantes", (mais espirituais) estão levando também as igrejas a uma postura de insensibilidade frente a esses problemas?

Não acredito. Ou, melhor, não quero acreditar. Há muitos - talvez nem tantos - que continuam lutando para salvar vidas. Corajosos e profundamente espirituais. Pois só os que são movidos pelo Espírito de Deus conseguem se manter fiéis à causa dos mais pobres, mesmo diante de insensibilidade, desilusões e incompreensões.

Jung Mo Sung em "Se Deus existe, porque há pobreza?" (Editora Reflexão).

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Alienação do ser



Manter o sujeito alienado e inconsciente é uma das maneiras mais eficazes de manipulá-lo. Manipular é roubar a identidade singular do indivíduo destituindo-o de sua própria existência. E é exatamente neste processo lento da morte do ser que os sistemas de opressão legitimam suas ações e obstaculizam qualquer forma de processo libertário. A estrutura da opressão, enquanto preserva a alienação da consciência, introjeta da mente do oprimido todo seu desprezo por ele e sua insignificância, de modo que a mentira propagandista do opressor torna-se a verdade existencial da sujeito histórico. Assim sendo, na prevalência da ausência da reflexão, na introjeção desta mentira que se torna verdade para o ser, a única realidade possível é a conformização do status quo. Se ao menos houvesse alguém que estivesse disposto a refletir, disposto a pensar os pensamentos de Deus. É assim, que na reflexão, no despertar de consciências letárgicas, nasce a pulsão pela ação. Reflexão que desperta a si mesmo do sono dogmático e torna possível a transformação da imutabilidade. Liberdade é o grito do alma que vive!E foi para a liberdade que Cristo nos salvou.

Vinde a mim, todos os que estão cansados e oprimidos e eu os libertarei - Jesus de Nazaré

domingo, 29 de março de 2009

Um mundo de contrastes

quinta-feira, 26 de março de 2009

Portas largas para Abelardos



O Senhor está maluco! Reduzir o capital? Nunca! ...Para defender meu dinheiro, serás executado hoje mesmo! Herdo um tostão de cada morto nacional!

A concentração do capital é um
fenômeno que eu apalpo com minhas mãos. Sob a lei da concorrência, os fortes comerão sempre os fracos.

Só se pode prosperar a
causa de muita desgraça, mas de muita mesmo!


Estas são falas de Abelardo I, personagem central do livro de Oswald de Andrade - O Rei da Vela. Percebe-se claramente que se trata de uma caracterização perfeita de um ganancioso capitalista, totalmente desumano e egoísta.

A percepção que tenho (quero estar errado), é que Abelardos são bem vindos na maioria das igrejas, e mais; são considerados abençoados, pois segundo o entendimento da massa, foram galardoados com o raríssimo "dom de adquirir riquezas".

Abelardos, na maioria das vezes, encontram seu lugar de destaque nos primeiros assentos (E atentardes para o que traz traje e lhe disserdes: Assenta-te tu num lugar de honra - Tiago 2.3) e são disputados a tapa por líderes que olham apenas a vantagem de tê-los como sócio-parceiros ministeriais. A razão está no fato dos Abelardos poderem colocar a disposição destes megalomaníacos narcisistas o poder da realização. Não há limites. Ora, pense nas possibilidades: Espaço na mídia, status social, abertura política, terrenos, templos, e alguns mimos também.

Abelardos são aqueles que não sabem discernir entre a sua mão direita e sua mão esquerda. Isto é, não bem onde está o limite entre a necessidade e o desejo. Sua convicção é a de que Deus realizará todos os seus desejos, mesmo que isto implique em cavar ainda mais o abismo da desigualdade social.

Pergunto como é possível algo outrora considerado tão perverso se tornar um símbolo de status e mera convenção social? Ora, será que houve uma trágica redução do evangelho, aquilo que René Padilla chama de evangelho-cultura? Isto é, podemos dizer que o evangelho se tornou um covil de Abelardos? Será que a mensagem de prosperidade material conseguiu alienar as consciências e encobrir a estupidez da exclusão social, exploração dos pobres e aniquilação dos recursos naturais?

Pense e reflita.

terça-feira, 17 de março de 2009

Da verdadeira possessão diabólica



"Ele não é propriamente o Espírito do Mal. O mal, tu bem sabes que já tem sido praticado, ao correr da História, com os mais sagrados desígnios. E o que assinala e caracteriza os servos do Diabo, neste nosso inquieto mundo, não é especificamente a maldade: é a indiferença".


Mario Quintana, A Vaca e o Hipogrifo, p.52.

Bem-aventurado os pobres


Os teólogos da prosperidade costumam relacionar pobreza material com maldição. Pobreza é maldição, e por implicação todo pobre é maldito. Um deles chegou a afirmar "a única vez em que as pessoas foram pobres na Bíblia foram quando elas estiveram sob uma maldição"1.

Para nós que vivemos em uma sociedade que organiza sua economia segundo o sistema capitalista, este discurso não chega a ser nenhuma novidade, posto que apenas os mais fortes se destacam em um mercado de concorrência. Os pobres? Segundo o sistema econômico vigente, são fracos e merecem a pobreza como seu salário; 30 milhões que morrem de fome ao ano porque não são bons suficientes para vencer seu concorrente direto. Quem são estes mortos miseráveis? Segundo a religião do mercado, são os "sacrifícios necessários" para o desenvolvimento e progresso econômico.

É evidente que esta necrófila lógica de mercado e a teologia da prosperidade andam de mãos dadas. Para a primeira pobre é um fraco, para a segunda um maldito. Por isto está na hora de passar a criticar não apenas os pressupostos teológicos desta teologia burguesa, mas sua absoluta desumanidade para com os pobres, oprimidos e miseráveis da terra.

Ouvi, meus amados irmãos. Não escolheu Deus os que são pobres quanto ao mundo para fazê-los ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? Mas vós desonrastes o pobre. Porventura não são os ricos os que vos oprimem e os que vos arrastam aos tribunais? Tiago 2.5-6

Será que existe alguma vantagem em ser pobre? O pobre pode ser considerado um bem-aventurado? O que faz os pobres merecerem a preocupação de Deus? Achei algo interessante no livro de Phillip Yancey2. Veja algumas vantagens:

01- Os pobres sabem que têm necessidade de redenção.
02-Os pobres reconhecem não apenas sua dependência de Deus e de gente poderosa como também interdependência uns dos outros.
03-Os pobres depositam sua confiança não nas coisas, mas nas pessoas.
04-Os pobres não têm um senso exagerado de sua própria importância...
05-Os pobres esperam pouca da competição e muito da cooperação.
06-Os pobres conseguem distinguir entre necessidade e luxo.
07-Os pobres podem esperar, porque adquiriram uma espécie de paciência obstinada...
08-Os temores dos pobres são mais realistas e menos exagerados...
09-Quando os pobres ouvem o evangelho, ele soa como boas novas e não como uma ameaça ou repreensão.
10-Os pobres podem reagir ao apelo do evangelho com certo abandono e com uma inteireza descomplicada porque têm tão pouco a perder e estão prontos para tudo.

Então, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus...Mas ai de vós que sois ricos! porque já recebestes a vossa consolação. (Lucas 6.20 e 24)

_______________________________________
1 - Paulo Romeiro, Supercrentes, p.68
2 - Phillip Yancey, O Jesus que eu nunca conheci, p.122

segunda-feira, 16 de março de 2009

Leia Pedagogia do oprimido / Paulo Freire

Li há pouco a obra prima de Paulo Freire, Pedagogia do oprimido. Cônscio de todas polêmicas que envolvem seu pensamento, apenas digo; não me recordo de ler algo tão belo e profundo. Este vídeo mostra alguns pensamentos contidos no livro.