segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Cão de caça do céu



Texto: Daniel Grubba

Nós aprendemos desde cedo, e de modo bastante enfático, que devemos a todo custo buscar a Deus. Aprendemos também que cabe a nós, exclusivamente, esta busca pelo divino-transcedental. Somente quem busca; encontra. Mas não pense que é uma busca qualquer “a gosto do freguês”, com licença da expressão. Deve ser, antes de mais nada, uma busca de coração extravagante, algo tão apaixonado que converta a atenção de Deus a nós e o constranja a agir em nosso favor. É assim que aprendemos.

Penso que há grande sabedoria nisso tudo. No entanto, há algo que aos poucos foi deixado de lado, e em virtude de influências antropocêntricas, Deus se tornou “alguém-a-ser-caçado” e nós, os caçadores. A partir daí, todo sucesso desta relação entre o humano e o divino, está em nossas mãos. Ou seja: é você que decide, o controle está em suas mãos e você pode (ou não) mover as mãos de Deus.

Temos em virtude deste ensino grande apreço por livros como “Caçadores de Deus” e também por outras literaturas que nos ensinam os caminhos espirituais-devocionais que nos levam a Deus. Gostamos muito também de reuniões espirituais que nos prometem conexões com as realidades metafísicas. Afinal, quem não deseja viver em proximidade com Deus? E quem dentre nós não quer descobrir os “meios” que abrem as portas do céu e tornam possível uma dinâmica relacional e intensa com o divino?

Porém, esta busca pelo divino reflete apenas um lado da moeda, e de acordo com a espiritualidade cristã-judaica, vista da perspectiva cristocêntrica, este lado é a parte mais frágil. E mais do que isso, além de ser a mais frágil, este lado humano apenas subsiste por causa do outro lado, absolutamente mais determinante nesta relação: Deus é caçador do homem. Por isso dizemos “Cão de caça do céu” relembrando a linda poesia de Francis Thompson.

Sim, antes de sermos os caçadores das coisas divinas, Deus é aquele que caça o homem apaixonadamente. Não é verdade que “nós apenas amamos a Deus, porque Deus nós amou primeiro?” (I Jo 4.19). R.M. Gautrey, não gostou do termo “cão de caça”, mas enfim ele se rendeu e disse que Deus é como aqueles esplendorosos cães de caça (collies) que buscam as ovelhas perdidas nas altas montanhas escocesas, a fim de livrá-las dos perigos da morte. É ele que, antes de qualquer ato devocional nosso, para todos seus deveres para procurar a dracma perdida; é Ele que deixa as noventa e nove no aprisco e sai em busca da desgarrada; é Ele que antes de toda a criação foi imolado como cordeiro que tira o pecado do mundo; é Ele que deixou toda sua gloria celestial e veio como luz ao mundo morrer como um maldito na cruz para nos atrair a Ele. Este é a verdadeiro segredo da atração, não a nossa busca por Ele, mas seu eterno amor que nos atrai a sua santíssima presença.

"Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor, e fui para eles como os que tiram o jugo de sobre as suas queixadas, e lhes dei mantimento." (Oséias 11 : 4)

"Há muito que o SENHOR me apareceu, dizendo: Porquanto com amor eterno te amei, por isso com benignidade te atraí." (Jeremias 31 : 3)

John Stott dedicou um capitulo de seu livro “Porque sou cristão?” para exaltar ao Cão de caça do céu, afirmando que foi a caça deste “amante tremendo” que tornou possível sua conversão a Cristo. Assim ele disse: “Jesus nos assegura em suas parábolas que, quer estejamos conscientemente buscando a Deus, quer não, ele com certeza está nos buscando.”

Agostinho em suas "Confissões" também registrou esta caça divina:

"Tu me chamaste, gritaste por mim, e venceste minha surdez. Brilhaste, e teu esplendor pôs em fuga minha cegueira. Exalaste teu perfume, respirei-o, e agora suspiro por ti. Eu te saboreei, e agora sinto fome e sede. Tocaste-me, e o desejo de tua paz me inflama."


Deus é quem nos busca. Ele mesmo está empenhado em nos guiar em toda verdade e outorgar a nós seus atributos comunicáveis. E somente a partir deste esforço celestial que podemos então buscar a Deus. Por isso, somente o buscamos porque Ele nos buscou primeiro. Esta deve ser a raiz de toda nossa espiritualidade e devoção. Fomos caçados graciosamente de modo tão irresistivel que agora não resta mais nada, senão escolher a melhor parte como fez Maria, e ficar prostrado aos Seus pés.

Se somos de fato cristãos, não é porque tenhamos nos decidido por Cristo, mas porque Cristo se decidiu por nós. É a busca desse “amante tremendo” que nos torna cristãos. (Francis Thompson )

Um comentário:

Odete Xavier disse...

Texto maravilhoso! O amor de Deus é ilimitado, Ele está sempre à procura dos perdidos, não querendo que nenhum deles pereça, mas que todos cheguem ao arependimento, rendendo-se aos Seus pés. Obrigada, SENHOR, por Teu grande amor por cada um de nós.

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